Teresa Sousa de Almeida, «Devastação», Colóquio-Letras n.º 209, Lisboa: 2022
«Devastação é um livro extraordinário, constituído por seis breves contos, com o título de seis personagens [...] Tem uma estrutura rigorosa: dois passam-se em Moçambique, três em Portugal e um na transição entre os dois países. [...] Eduardo Pitta escreveu poesia, contos, um romance, diários, memórias, crónicas, ensaio e crítica. A forma como estes diferentes géneros e formas dialogam entre si, criando uma teia de relações entre o eu autobiográfico, o narrador e o sujeito poético é extremamente complexa e foi analisada de forma magistral por Paulo Simões Mendes [cf A Anatomia do Desejo Refractário na Obra Literária de Eduardo Pitta, dissertação de mestrado apresentada à Faculdade de Letras, da Universidade de Lisboa, 2006] A obra de Eduardo Pitta desconstrói e denuncia, de uma forma violenta, as instituições repressivas da sociedade colonial moçambicana (e não só, porque o romance Cidade Proibida se passa em Portugal), sobretudo a escola e o exército, confrontados com a experiência homossexual das personagens ou do eu que escreve na primeira pessoa, no caso das memórias, Um Rapaz a Arder, de 2013. Expõe, de uma forma crua, a hipocrisia da moral vigente, que tudo perdoa e silencia, mesmo o imperdoável, se for escondido, e tudo reprime, se for exposto. Constitui uma provocação e afirma uma identidade gay: o direito a dispor do corpo, do sexo, do prazer. [...] O autor sabe articular a História com as narrativas que conta. Os seus textos são de um rigor extremo e podem ser datados, criando assim mais um efeito de real. Seguimos, na sua ficção, os acontecimentos mais importantes da colonização e da descolonização, em Moçambique, do Estado Novo e do pós-25 de Abril, em Portugal, quer surjam em pano de fundo, quer determinem, de uma forma por vezes trágica, o destino das personagens. A circulação entre os dois países cria, como a crítica tem acentuado, um sentimento de exílio, de pertença e não pertença a dois espaços, cujas culturas estão, em muitos aspectos, em pólos opostos, sobretudo no que diz respeito à ligação com a paisagem e à forma como África propicia uma relação mais intensa com o corpo e com o desejo. Tal como acontece também em Devastação, o autor utiliza um estilo conciso, rigoroso, cru. A estrutura narrativa, rápida, sempre a criar efeitos de surpresa, cria sucessivos momentos de estranhamento, deixando-nos a nós, leitores e leitoras, sem fôlego e em sobressalto permanente, tanto mais que, por vezes, há elipses que implicam uma leitura exigente [...] Por todos estes factores, é uma obra única, profundamente original, que abala certezas, desconstrói preconceitos e desvenda novas visões do mundo. Neste último livro, com excepção de João Pedro, as narrativas são ficcionais, centrando-se sobretudo em personagens femininas, analisadas como sujeitos e não apenas como meros objectos do desejo e da violência dos homens. [...] O livro inicia-se com uma obra-prima, que não parece assemelhar-se a nenhum outro texto: Ema. Trata frontalmente de um dos últimos tabus da sociedade ocidental: a menstruação com todos os interditos que lhe estão ligados. Parte-se de um acidente, relacionado com uma rapariga de dezasseis anos, que vai estragar toda a sua vida, devido à indiscrição cruel e humilhante de uma personagem masculina. [...] Tal como a crítica tem acentuado, algumas narrativas de Eduardo Pitta centram-se no crescimento, por vezes doloroso, dos protagonistas masculinos [...] Eduardo Pitta tem a capacidade de recriar os mais diversos ambientes, em curtas palavras, utilizando pormenores significativos e expressões concisas. [...] Eduardo Pitta tem o talento de dissecar sentimentos, formas de vida, comportamentos e relações afectivas, situando as personagens tanto na classe a que pertencem como no espaço e no tempo histórico que as definem. [...].»