Opinião crítica sobre Eduardo Pitta

Esta marginália de extractos  —  nenhum texto é transcrito na íntegra  —  está longe de ser exaustiva.

Helena Vasconcelos, «Devastação», Ípsilon, Público, Lisboa: 2021

«[...] É essa sensação de incómodo, a que não falta um arrepio de excitação, que acompanha a leitura destes seis contos de Eduardo Pitta, reunidos sob o título Devastação. Eduardo Pitta é um daqueles autores que é capaz de escrever poesia, ensaio, literatura de viagens e prosa sem nunca abandonar uma espécie de “lirismo selvagem”, em que a crueldade natural do ser humano se conjuga elegantemente com as evocações mais refinadas, as referências mais requintadas. Assim, as suas personagens podem encontrar-se num ambiente esteticamente irrepreensível, podem ter sido educadas na abundância e no espírito mais cosmopolita, mas guardam, dentro de si, o trauma e a violência, a dor e a contrição que os marcam para a vida. Seja na velha Europa, seja nas decadentes e exóticas ex-colónias, durante o ocaso do Império, todos sofrem de um terror existencial que faz deles vítimas ou carrascos e, por vezes, ambas as coisas. [...] Na construção narrativa, não existe, nesta obra, análise psicológica ou qualquer outro desenvolvimento das personagens. Não é essa a intenção do autor. Ele apresenta-nos homens e mulheres destroçados, muito para além de uma hipótese de salvação. Abusados, humilhados, martirizados em algum momento fatal das suas vidas, tornam-se alvos a abater, figuras trágicas sem grandeza, desesperadas de si próprias. Os contos são curtos, incisivos, a acção desenrola-se a uma velocidade vertiginosa e está directamente relacionada com os acontecimentos que servem de cenário à existência das personagens. [...] Com uma concisão que lembra os contos de Lydia Davis e a poética desencantada dos de Raymond Carver, Eduardo Pitta é, no entanto, original e único na forma como, em poucas palavras sabiamente escolhidas, cria tensão, drama, angústia e desassossego. Demonstrando uma forte empatia em relação às mulheres — as suas inseguranças, as humilhações sofridas e também a sua resistência — Eduardo Pitta, com uma saudável ausência de sentimentalismo, utiliza uma escrita directa e elegante que nos leva para os lugares mais obscuros da mente humana e para as consequências “devastadoras” que surgem da ausência de amor e empatia. São contos cruéis e surpreendentemente exaltantes.»

Paulo Serra, «Devastação», Postal do Algarve, 2021

Devastação é o segundo livro de contos de Eduardo Pitta publicado pela Dom Quixote. Ao contrário de Persona [...] estas seis histórias, com nome de gente [Ema, João Pedro, Ofélia, Gilberta, Inês, Zé Maria], cerca de 10 páginas cada, não se entretecem nem formam um mosaico. São casos de vidas díspares, singulares, de 4 mulheres e 2 homens, que parecem nada ter em comum e sem que nenhuma das histórias pareça ser destacada, quase todas com final súbito e por vezes desconcertante. [...] Entre estas várias histórias de vida devastadas é possível encontrar afinidades, como a vivência de um antes e um depois do 25 de Abril, ou de uma infância e adolescência passada na África colonial e uma idade adulta vivida na Metrópole. Há personagens em fuga de África cujas vidas terão de ser refeitas, deixando tudo para trás assim que deflagra a Revolução e se anuncia o fim da guerra e da ocupação colonial. Com a sucessão das histórias percebe-se o desenrolar do fio do tempo até chegarmos aos nossos dias, como as intervenções do FMI em Portugal (na história de Inês) ou a pandemia (Zé Maria) como pano de fundo, e sob um olhar crítico, com um arranque simbólico numa sexta-feira 13, em Março. É ainda possível ler como a homossexualidade, transversal a um par destas histórias, é alvo de humilhação, expulsão ou recalcamento. O marido de Inês, por exemplo, quando sabe que o filho vende drogas, expressa alívio: «Pelo menos não é maricas.» Aqueles que ficam de fora, como o filho de Gilberta, podem ser os únicos cujas vidas foram mais alegres, e daí ficarem de fora destes contos. Para quem leu outras obras do autor, e conhece o seu percurso de vida, é difícil impedir uma sensação de reconhecimento, como se alguns dos factos narrados fossem autobiográficos ou pelo menos inspirados em histórias reais. Como se anuncia na epígrafe do romance, uma frase, de Hilary Mantel: «Some of these things are true and some of them lies. But they are all good stories.» É possível reconhecer nestes contos aspectos familiares na escrita de Eduardo Pitta, como um meio anglo-saxónico, culto, abastado, condicente com as elites moçambicanas, onde não faltam os tiques snob, os anglicismos...

Yvette K. Centeno, «Devastação», Jornal Tornado, Lisboa: 2021

Devastação / «Uma edição elegante, com ilustração na capa que anuncia que há sangue na narrativa, sangue com uma faca afiada pronta a dilacerar um corpo, uma alma, interromper um destino. São contos, arte em que Eduardo Pitta, já com vasta obra publicada, se tornou Mestre. Neste conjunto, que é pequeno na escolha, abrem-se vidas grandes. Não grandiosas, perderiam a devastação sofrida, mas grandes na amplitude da escolha: memórias variadas, da infância a um tempo presente que as guardou, sem resguardar, ou mesmo directamente actuais, de modo coloquialmente descrito, nos termos que são os de hoje [...] Vidas que decorrem por vezes entre um Moçambique ainda colonial ou a caminho da Revolução e um Portugal post Revolução, a caminho de um progresso rápido e nem sempre bem sucedido. Não é optimista a visão oferecida nestes contos, é mesmo por vezes fria e muito realista. Narrativa contida, rápida, como se houvesse uma obrigação de tempo e de espaço [...] Há personagens definidas, situações bem caracterizadas, que evoluem (não se arrastam, como em tantas que vemos nas produções nacionais) cenários reais onde o possível tem a verosimilhança pedida por Aristóteles, até que surge o desfecho, trágico e anunciado já nos pequenos detalhes que vão compondo o quadro. Também não falta, no exercício contido (que pode ser ampliado, se a decisão for essa) para além do facto real, a carga emocional, em cada um dos contos e sua personagem condutora. [...] São seis contos que entre a descrição por vezes crua se esconde um certo humor, Eduardo escritor lido e vivido é assim que deixa a sua marca: entre a mancha maldosa do sangue no vestido da debutante e a atracção fatal do suicídio do homem que não luta, não sabe lidar com o tempo presente e o abandono, e a à vida real prefere o suicídio.»

Yvette K. Centeno, «Persona», 3.ª edição, Literatura e Arte, Lisboa: 2020

Persona / Comecei, numa nota breve, umas considerações sobre a difícil arte do conto. [...] A mim o que me seduz é a capacidade, o engenho, de condensar o muito de uma narrativa no pouco de uma expressão que sem perder profundidade e sentido ali nos é exposta, para ler e pensar. [...] Ocorre-me isto por ter lido, do Eduardo Pitta, escritor cuja prosa aprecio desde que a descobri, pelo que tem de conhecimento justo e alargado da nossa língua, não é pela sua mão, realista, camiliana, ajustada aos seus temas sem floreados ditos de "encher" que a nossa língua, tão rica, se vai empobrecer.
 
É vasta a sua obra, e pouco teria a acrescentar enquanto comentário literário, ao que já foi apontado na marginália literária desta reedição da obra. O que pretendo é aprofundar, se for capaz, a arte do conto, neste pequeno grande livro PersonaO autor lhes chama «contos morais», mas o facto de formarem uma trilogia, aponta para uma evolução que foi concebida no sentido de haver aí algo de comum, e que ao leitor não deverá escapar. São cada um uma étapa da formação ou do crescimento, físico, emocional, intelectual que se deu em diferentes espaços (o que pode ter a sua relevância: mais livres uns, menos, outros). Moçambique e África do Sul, nos anos 60, e o último, Pesadelo (o título já é sinal), entre 1971 e 1973. Aqui se revisita o passado. Mas não para fazer ou refazer memorialismo, mas muito simplesmente para o situar, o entender. Volto (será da idade? será da experiência de vida?) ao meu amado Holderlïn: «somos um sinal, sem sentido [...] e quase perdemos a língua na distância.» Estes são versos da segunda versão de Mnemosyne [...] a grande reflexão que Heidegger aproveita para pensar o pensamento e a memória, em O Que É Pensar, o conjunto dos últimos seminários que deu em Heidelberg, depois de perdoado pela adesão ao nazismo.
 
Parece que me afasto do tema central da arte do conto, nesta obra de Eduardo Pitta, mas não. Desejo aproximar-me do sentido de que os contos são procura e manifestação e em especial dessa secreta e misteriosa língua que quase se perde na distância.  Esta é a língua de que Eduardo não se perde, simbólica, profundamente enraizada no seu inconsciente (ele é a distância, e a ele devemos estar atentos, para estar vivos). Afonso é o fio narrativo que passa de um para outro conto, mas do qual o autor não deseja mais do que isso. O autor distingue os momento de per si, cada qual com sua forma e sentido, e é do sentido e da língua na distância de que não pode perder-se, que na verdade se ocupa. Quando já no fim da obra, depois de tantos momentos e peripécias variadas, ficamos com uma espécie de grande tela de um tecido social, de que em Portugal continental pouco se saberia, ou dele pouco se falaria, e que o autor aqui nos deixa com todos os pormenores, dos mais ínfimos, incluindo até os menus das jantaradas ou das recepções mais formais, citando e isso até nos é agradável, leituras como os Cem Anos de Solidão, ou a cultura que impelia alguns outros, fora dali, a ir ver o eterno Ionesco — nada, mas nada escapava ao escrutínio do jovem Afonso, alter ego / personado nosso autor. As descrições são detalhadas, o olhar é devorador, bem como certas experiências e situações de carácter sexual que em Portugal naquele tempo nunca a censura teria permitido, o 25 de Abril demoraria um pouco mais a chegar, até o linguajar da tropa, na tropa era como era, mas não surgiria sob a forma de prosa de escritor  ler entre nós Cardoso Pires já era quase milagre.
 
Eduardo vem de longe, é outro — boa escolha o título de Persona— escolhe os caminhos das verdades cruéis, não fica atrás dos franceses que leu, como o Marquês de Sade ou outros da escola inglesa, entre nós menos conhecidos. [...] Mas porquê definir como conto algo que já o célebre Tom Jones de Henry Fielding, no século XVIII, tinha libertado de qualquer definição que fosse um empecilho? Ou Rabelais, ainda antes, ou a magnífica história de Apuleio, o Burro de Ouro? E a sua simbologia? Precisamente porque nestas narrativas de Eduardo a precisão, a concisão, o cuidado com a língua é de tal ordem, que é nesse exercício que nos devemos prender e aprender, apesar de toda a narrativa que nos envolve também em mundos reais, de outrora e  menos conhecidos. Se no romance ou na novela predomina o enredo, no conto predomina a língua. E não vou repetir Holderlïn.

Yvette K. Centeno, «Persona», 3.ª edição, Literatura e Arte, Lisboa: 2020

Persona / Comecei, numa nota breve, umas considerações sobre a difícil arte do conto. [...] A mim o que me seduz é a capacidade, o engenho, de condensar o muito de uma narrativa no pouco de uma expressão que sem perder profundidade e sentido ali nos é exposta, para ler e pensar. [...] Ocorre-me isto por ter lido, do Eduardo Pitta, escritor cuja prosa aprecio desde que a descobri, pelo que tem de conhecimento justo e alargado da nossa língua, não é pela sua mão, realista, camiliana, ajustada aos seus temas sem floreados ditos de "encher" que a nossa língua, tão rica, se vai empobrecer.
 
É vasta a sua obra, e pouco teria a acrescentar enquanto comentário literário, ao que já foi apontado na marginália literária desta reedição da obra. O que pretendo é aprofundar, se for capaz, a arte do conto, neste pequeno grande livro PersonaO autor lhes chama «contos morais», mas o facto de formarem uma trilogia, aponta para uma evolução que foi concebida no sentido de haver aí algo de comum, e que ao leitor não deverá escapar. São cada um uma étapa da formação ou do crescimento, físico, emocional, intelectual que se deu em diferentes espaços (o que pode ter a sua relevância: mais livres uns, menos, outros). Moçambique e África do Sul, nos anos 60, e o último, Pesadelo (o título já é sinal), entre 1971 e 1973. Aqui se revisita o passado. Mas não para fazer ou refazer memorialismo, mas muito simplesmente para o situar, o entender. Volto (será da idade? será da experiência de vida?) ao meu amado Holderlïn: «somos um sinal, sem sentido [...] e quase perdemos a língua na distância.» Estes são versos da segunda versão de Mnemosyne [...] a grande reflexão que Heidegger aproveita para pensar o pensamento e a memória, em O Que É Pensar, o conjunto dos últimos seminários que deu em Heidelberg, depois de perdoado pela adesão ao nazismo.
 
Parece que me afasto do tema central da arte do conto, nesta obra de Eduardo Pitta, mas não. Desejo aproximar-me do sentido de que os contos são procura e manifestação e em especial dessa secreta e misteriosa língua que quase se perde na distância.  Esta é a língua de que Eduardo não se perde, simbólica, profundamente enraizada no seu inconsciente (ele é a distância, e a ele devemos estar atentos, para estar vivos). Afonso é o fio narrativo que passa de um para outro conto, mas do qual o autor não deseja mais do que isso. O autor distingue os momento de per si, cada qual com sua forma e sentido, e é do sentido e da língua na distância de que não pode perder-se, que na verdade se ocupa. Quando já no fim da obra, depois de tantos momentos e peripécias variadas, ficamos com uma espécie de grande tela de um tecido social, de que em Portugal continental pouco se saberia, ou dele pouco se falaria, e que o autor aqui nos deixa com todos os pormenores, dos mais ínfimos, incluindo até os menus das jantaradas ou das recepções mais formais, citando e isso até nos é agradável, leituras como os Cem Anos de Solidão, ou a cultura que impelia alguns outros, fora dali, a ir ver o eterno Ionesco — nada, mas nada escapava ao escrutínio do jovem Afonso, alter ego / personado nosso autor. As descrições são detalhadas, o olhar é devorador, bem como certas experiências e situações de carácter sexual que em Portugal naquele tempo nunca a censura teria permitido, o 25 de Abril demoraria um pouco mais a chegar, até o linguajar da tropa, na tropa era como era, mas não surgiria sob a forma de prosa de escritor  ler entre nós Cardoso Pires já era quase milagre.
 
Eduardo vem de longe, é outro — boa escolha o título de Persona— escolhe os caminhos das verdades cruéis, não fica atrás dos franceses que leu, como o Marquês de Sade ou outros da escola inglesa, entre nós menos conhecidos. [...] Mas porquê definir como conto algo que já o célebre Tom Jones de Henry Fielding, no século XVIII, tinha libertado de qualquer definição que fosse um empecilho? Ou Rabelais, ainda antes, ou a magnífica história de Apuleio, o Burro de Ouro? E a sua simbologia? Precisamente porque nestas narrativas de Eduardo a precisão, a concisão, o cuidado com a língua é de tal ordem, que é nesse exercício que nos devemos prender e aprender, apesar de toda a narrativa que nos envolve também em mundos reais, de outrora e  menos conhecidos. Se no romance ou na novela predomina o enredo, no conto predomina a língua. E não vou repetir Holderlïn.

Paulo Serra, «Persona», 3.ª edição, Postal do Algarve, 2019

Persona / Esta pequena pérola constituiu a estreia do poeta e crítico literário Eduardo Pitta na ficção, em 2000, e é publicada agora pela Dom Quixote nesta 3.ª edição [...]. Classificado como uma «trilogia de contos morais», este livro é, na verdade, um pequeno romance em que cada micronarrativa corresponde a uma fase de vida da mesma personagem. [...] O que impressiona na escrita de Eduardo Pitta é que na vivência da sexualidade de Afonso, e dos que o rodeiam, não há cedência à vergonha nem ao pudor [...]. Persona é uma narrativa ousada e corajosa em que se reconta os últimos anos da guerra colonial a partir da perspectiva de uma minoria, melhor dizendo, de uma perspectiva outra.

Yvette K. Centeno, «Um Rapaz a Arder», Literatura e Arte, Lisboa: 2019

Comecei a ler Eduardo Pitta na revista Sábado, e nos seus comentários sobre variados temas, no Facebook. Será triste, que eu tenha lido assim, mas é a verdade pura. Por outro lado foi assim que me seduziu uma prosa inteligente, informada e fundamentada, quando discursava sobre política, sobre cultura, sobre qualquer acontecimento que estivesse em discussão [...] Agora tenho em mãos as Memórias de Eduardo Pitta, escritas de 1975 a 2001 [...] E para que saibamos que foi feito um relato que pretende ser completo, agradece a todos os que o ajudaram a recordar um ou outro episódio, que ele deseja completo na verdade anunciada. Temos de facto uma narrativa muito detalhada de tudo o que foi acontecendo no Portugal da Revolução de Abril, de melhor e de pior, e pelo meio parte da história de uma descolonização de que Eduardo Pitta não esconde o que houve de perseguição, violência e terror. Quem conseguiu prever o que lá vinha, fugiu, para Portugal, para o Brasil, ou mais perto e a tempo para a África do Sul. Eduardo nasceu em Moçambique, em 1949, mas está sempre listado como escritor português e embora eu acredite que não esqueça a sua infância e juventude num país onde, como ele diz nestas memórias, «as pessoas tinham um à-vontade» que não encontrou em Lisboa. Reparei nesse sentimento de liberdade em vários casos, de amigos e pessoas de família que estiveram, alguns em Moçambique, outros em Angola, e trouxeram de longe uma saudade especial, uma respiração aberta e feliz, até ao momento da Revolução que os trouxe de volta à Pátria. A quem ainda hoje o possa negar, Eduardo confirma: houve execuções sumárias, houve crianças brancas penduradas em ganchos de talho, houve terror que violentou brancos e negros, democratas e tiranos. Felizmente é passado, mas um bom memorialista, como um bom investigador e jornalista não mente sobre o passado. [...]
 
Aristocrata, orgulhoso de o ser, Eduardo não renega amizades, sejam de esquerda ou de direita, marcas que ainda hoje empurram, sem que se tenha culpa de amar a liberdade e a independência assumida, para um lado ou para outro. Pode dizer de si: este sou eu, agora como sou e já antes, como fui. A sua escrita é empolgante, ou eu não teria parado só uma vez para descansar os olhos, tendo chegado ao fim numa leitura voraz. Porque vivi muito do que  ele conta, se não foi na rua, com Mário Soares (e já quando estudante, em 1962, nas greves, ou a ouvir a Maria Barroso a dizer poesia no Técnico) foi em casa da Natália Correia, foi com a Sophia diante da prisão de Caxias, foi na televisão, sempre ligada, ou a ler nos jornais o que me dava mais informação. Ele ia fazendo o mesmo. E quando as memórias se desviam da política vivida para o meio literário que o acolhe -primeiro com distância, depois com todo o entusiasmo, dá-nos a listagem mais do que completa do quem era quem, naqueles anos, ou ainda não era mas estava quase a ser e continuou, fornecendo abundantes momentos que a sua verve especial recupera ou desconstrói, em texto saboroso. Sendo eu tão mais antiga, escuso de dizer que conheci, de perto ou de longe todo o meio mundo cultural que ele cita. E é isso que para mim torna tão viva e interessante esta leitura. Recomendo, aos que são da minha geração e aos mais novos, porque a verdade é que a memória dos mais velhos nos fornece tanta informação que falta, e sem ela pouco somos, ou menos ainda. Ele esteve, como eu, na primeira sede da Associação Portuguesa de Escritores, no n.º 13 da Rua do Loreto. Não coincidimos porque ele é tão mais novo. Mas ali, como no Centro Nacional de Cultura da Helena Vaz da Silva, se vivia liberdade (ou desejo dela) e cultura moderna em aberta discussão. Leio este livro de memórias como li Eça e Ramalho, nas suas cartas. A ironia, a qualidade da prosa, a observação pertinente dos vários mundos que entre nós se expunham, o ganho ou perda de qualidade de vida, idas para o Brasil, para sobreviver a maus bocados) e regressos saudosos de novo às tertúlias dos cafés, às amizades fiéis, à entrega voraz da escrita, agora maior que a vida - enfim, tudo neste livro me atrai e me levou a continuar páginas fora, páginas dentro, parando apenas numa ou noutra evocação onde não estando, também estou, porque vivi isso mesmo que ali é referido. E confirmo: o que ele diz está dito e fica dito, para memória presente e futura. No meio de tanta política e tanta politiquice ainda hoje, sobram-nos os poetas, os pintores, os criadores em geral com que ele se cruzou  ou travou amizade, a gente simples e boa, o convívio que existe entre quem ama o mesmo e nem para dizer o que sente precisa de palavras. Interessante seria, acompanhando os capítulos em que viagens e estadias nos são descritas também com grande pormenor, desenhar o roteiro dos gostos e preferências. Requintados, ou muito inovadores, em cada momento. Por locais que surgem, como o célebre Frágil do Bairro Alto, ou outros que foram perdendo a sua graça ou deixando de existir. Em todos uma certeza, a de que eram espaços livres, sem repressão nem olhares de ínvia censura. Talvez, de vez em quando, umas pontinhas de inveja... Espera-se que Eduardo continue a escrever, que não perca a energia e muito menos ainda esta memória que eu quase diria gulosa, de ver, saber e contar.

Hugo Pinto Santos, «Pompas Fúnebres», Colóquio-Letras n.º 192, Lisboa: 2016

A penúltima crónica coligida por Eduardo Pitta em Pompas Fúnebres começa por perguntar «Para que serve a crítica?» [...] O que quer dizer, isso sim, é que Eduardo Pitta não pode esconder a sua condição de escritor e de crítico literário quando assina as suas crónicas. [...] Eduardo Pitta, é sabido, não padece da habitual má consciência nacional que parece fugir do prazer, da sensualidade e da sofisticação como se estes valores fossem, automaticamente (e em bloco), um estigma de inevitável futilidade. E se Pitta não teve de se submeter ao absurdo do tirano, não são raras as vezes em que fustiga o que chama de «mandarinato». O que, embora por trilhos distintos, consiste noutra casta de prepotência e trono. Gore Vidal é outro dos autores que bem podiam formar um modelo para a prática de escrita e para o tipo de reflexão que Eduardo Pitta leva a cabo. [...] E quando, com o subtil sentido de humor que costuma caracterizá-lo, Pitta comenta que «só não met[e] Suetónio ao barulho para não alvoroçar a malta», está não só a remeter para esse magma histórico-cultural, mas a abrir uma das mais importantes portas de acesso à sua reflexão sobre a literatura. [...]
 
Como sempre, procede sem excesso de mesura, nem complacências. [...] Talvez não por acaso, Eduardo Pitta é dos que não enjeita a referência biográfica, a anedota culta, ou a articulação entre produção artística e contexto histórico. [...] A posição assumida por Eduardo Pitta é sempre a de varrer a generalidade do campo de visão que se abre diante de si, optando por destacar o que seja a referida «grande tradição» [...] O que fica dito não implica, todavia, que as crónicas acolhidas em Pompas Fúnebres se circunscrevam à matéria cultural e, mais especificamente, literária. Pitta é perfeitamente capaz de fornecer indicações genéricas que apontam para linhas de força globais. [...] Nas crónicas que coligiu em Pompas Fúnebres, Eduardo Pitta analisa o seu tempo, destacando o que lhe é específico e estudando os contrastes e as permanências — «O intelectual foi sempre o homem a abater, o ar do tempo apenas mudou as munições». O chamado ar do tempo é revisto à luz da corrente imparável das eras. O sentido de humor e a perspicácia, a noção das proporções e o olhar atento salvam os pormenores da irrelevância e erguem-nos ao estatuto de categorias universais. [...]

Pedro Mexia, «Pompas Fúnebres», Expresso, Lisboa: 2014

Conhecido sobretudo como poeta, Eduardo Pitta mudou esse paradigma na última década e meia, publicando onze livros de ficção, ensaio, crítica, e diários, viagens e memórias. Pompas Fúnebres é o seu segundo volume de crónicas, depois de Intriga em Família (2007), e reúne meia centena de colunas escritas para a revista LER. O falível critério das crónicas menos situadas no tempo é aqui talvez substituído pelas mais situadas, as mais identitárias; aquelas que, como o autor lembra nas epígrafes, convocam lembranças e precipícios. Isso significa temas como o casamento entre pessoas do mesmo sexo, os escritores LGBT, o patrício e feroz Gore Vidal; trivialidades como o dress code e o gossip; e, claro, as recordações ambíguas de um pied-noir. [...]
O estilo de escrita é, como sempre em Pitta, muitíssimo legível e sucinto, embora tortuoso nas intenções. Não faltam textos ácidos à clef, algumas semificções [...] Vale a pena no entanto dizer que o livro tem um fio condutor bem interessante: o cânone e a legitimação em literatura. Crónica após crónica, revivem-se as últimas quatro décadas, o ocaso do neo-realismo, as mutações no mercado editorial e livreiro, o marketing, a decadência do jornalismo cultural, os supostos booms das décadas de 1980 e 2000 [...] Aos romancistas novos, por exemplo, é diagnosticado um hipotético «défice de real» [...] 

Eugénio Lisboa, «Um Rapaz a Arder», Colóquio-Letras n.º 185, Lisboa: 2014

Um Rapaz a Arder / Com este seu livro de memórias, circunscrito ao período que se situa entre 1975 e 2001, Eduardo Pitta vem aumentar a bibliografia memorialística portuguesa, que, não sendo muito vasta, inclui algumas espécies de suficiente vulto [...] As memórias são livros que se deseja escrever, em geral, no ocaso da vida, para repor, para a posteridade e, nalguns casos, também, para os contemporâneos, factos, pessoas, situações, emoções, ideias, que se têm por suficientemente interessantes ou mesmo importantes e que não devem ser esquecidas. [...] O caso de Eduardo Pitta é intermédio: escreveu as suas, não no ocaso da vida, mas também não, na casa dos trinta. [...] Uma coisa têm em comum os memorialistas: visam contar a verdade acerca do seu tempo — acerca dos outros e de si próprios. No entanto, há sempre limites para a verdade que estão dispostos a contar. [...] Outro ponto que gostaria de sublinhar: este livro de Eduardo Pitta, que tem páginas de antologia, é, assumidamente, um livro de memórias (relativo a um período limitado da sua vida: 1975-2001) e não uma autobiografia. [...] Não é, de todo, o protocolo de Pitta. As suas memórias são muito voltadas “para fora”, para o mundo (social, político, literário, mundano, gastronómico), com poucos rasgos líricos. Mesmo os estados de alma são anotados de modo breve, brusco, logo deixados cair. É uma escrita firme, assertiva, convicta (e, às vezes, convencida), não vaga, não deliquescente. Preocupada, por vezes, em excesso, com o que, em cada momento, está in, em todos os sectores da vida: pinta quadros traçados de ironia contundente, mas com o bem documentado, que pressupõe atenção séria e preocupada. [...] O primeiro capítulo do livro — Próspero & Caliban — relata os seus últimos dias de Moçambique. Eduardo Pitta mostrava alguma ansiedade em relação a este particular capítulo e tinha razão para essa ansiedade, mas tinha-a pelos bons motivos: o seu relato é de uma total independência e frontalidade e é escrito por alguém que «não tem frio nos olhos», como dizem os franceses. O que diz dos Democratas de Moçambique (onde estiveram bons amigos meus), do «pico das purgas» entre 1975 e 1990, dos campos de «reeducação», da «fome generalizada» e da «emigração de milhões», nos anos 80, em Moçambique, é a pura verdade e deve ser contada, para que se não transforme o sangue da História em épico de cartolina, para consumo nas escolas. Este capítulo é imparcial e é, também, por vezes, ferinamente justiceiro, na sua notação brusca, à Saint-Simon: referindo-se ao dia em que se celebrava a independência de Moçambique, Pitta escreve: «Estavam lá muitos filhos da burguesia dourada, gente que não tinha sujado as mãos na guerra, preferindo viver anestesiada em Oslo ou Estocolmo. Alguns ficaram. A maioria regressou no primeiro avião para o borralho escandinavo.» Mas não é só esta ironia frontal que ocupa este capítulo. Pitta dá-nos passagens de uma ironia a beirar o surreal, como quando nos relata o lançamento do seu primeiro livro, na Lourenço Marques dos «últimos dias». [...] Um dos aspectos que torna atraente este livro é a corajosa falta de respeito para com os ícons estabelecidos: preferir, por exemplo, Érico Verissimo a Marcel Proust irá fazer eriçar-se mais do que uma sobrancelha. Embora admirando Verissimo, que considero muito melhor romancista do que Jorge Amado, teria alguma dificuldade em subscrever a afirmação de Pitta. Mas o que aqui está em jogo não é a nossa concordância com ela ou a nossa discordância dela — o que está em jogo é o seu desplante intrépido, ao dizer o que pensa, ao diabo as consequências! [...] Eduardo Pitta apresenta-nos um panorama social, literário e artístico nada complacente. Certos quadros trazem, até nós, a futilidade, o vazio, a pelintrice das ideias, das emoções e das preocupações — que nos corroem a alma. [...] O regredir da sociedade e seus valores ao pré-25 de Abril é eloquentemente causticado, em tiradas deste gosto: «A Olá! cumpriu a função pedagógica de mostrar a um país faminto que o 25 de Abril não tocou num cabelo das sessenta famílias que Cunhal toda a vida vituperou.» [...] A memória de Eduardo Pitta é uma memória de incríveis minúcias, capaz de irritar quem não guarda, dos acontecimentos passados, senão recordações em clave de mais ou menos. [...] na sua altaneira exibição de conhecimento microscópico do milieu, Eduardo Pitta usa sempre — e fá-lo com singular mestria — um fundo de ironia assassina, que só, até certo ponto, dissimula. Certas suas formulações decapitam sem piedade. [...] Não é o caso de Pitta que ainda se não reformou de viver, embora se tenha tornado um reformado oficial, no sentido de se ter volvido um alvo preferido dos esbulhos em que o poder se exercita. E também se não reformou de escrever, com muita poesia, ficção e ensaio a haver.

Edgard Pereira, «Um Rapaz a Arder», Revista do Centro de Estudos Portugueses, n.º 49, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, Brasil, 2013.

Retirado de um poema de Archote Glaciar (quinta colectânea poética do autor, de 1988), Um Rapaz a Arder nomeia um livro de memórias do escritor Eduardo Pitta, que cobre em dez capítulos o período incluso entre 1975 e 2001. Vale dizer: desde a saída de Lourenço Marques, aturdida e em chamas com as lutas da independência, para fixar-se em Lisboa, chacoalhada ainda pelos ares trepidantes da Revolução dos Cravos. Inicia-se com o relato das marchas e contratempos da luta anticolonial em África, termina com a destruição das torres gêmeas em Nova Iorque, o terror nos dois extremos. [...] O primeiro capítulo, Próspero & Caliban, apresenta em síntese o movimento que redundou na independência do país africano. [...] O alcance cosmopolita e a veemência na expressão da identidade gay, evidentes na primeira nota de pé de página, evidenciam um registro histórico que não se contenta com a pintura confortável do quintal doméstico. Ao contrário, quem se debrruça no tempo carrega o estigma de ter duas pátrias [...] As questões de gênero, um dos eixos fundamentais, são tratadas mais sob a clave de Gore Vidal do que de Gide [...] A irreverência, a ironia e a elegância pontuam o estilo ágil, direto, incisivo, por vezes insolente e esnobe. [...] Para além do enfoque político, outras pautas são abordadas, das artes plásticas às viagens internacionais [...] das boates gays aos restaurantes da moda. A estadia de três meses no Brasil nos anos 1980, com a inflação na estratosfera, a ditadura militar agonizante e a seleção de futebol encantando o mundo com um futebol vistoso mas de resultados pífios, rende oito páginas de registro directo [...] Ao revelar a convivência com os amigos, as palavras saem úmidas de afeto e de cumplicidade. [...] O esforço de expandir o relato e os comentários pode ser observado no cuidado com que as notas bibliográficas suplementam o texto principal, adicionando detalhes e complementando os dados. Fartamente enriquecido com fotos, o livro traz índice onomástico e destaca-se ainda pelo apuro e qualidade do acabamento gráfico.

Fernando Pinto do Amaral, prefácio à 3.ª edição de «Cidade Proibida», Lisboa: Planeta, 2013.

Mesmo num panorama literário tão previsível como o português, surgem por vezes livros diferentes, que parecem afastar-se de um certo mainstream editorial destinado a sossegar os espíritos e reconfortá-los quanto ao valor da «literatura» reconhecida como tal. A publicação deste romance de Eduardo Pitta, em 2007, representou qualquer coisa de novo nos dois contextos em que se inseria – o da ficção portuguesa contemporânea e o da própria obra do autor. [...] Se olharmos com alguma atenção para esta Cidade Proibida, deparamos desde logo com um estilo pessoal, assente numa escrita ora muito directa e incisiva, por vezes mesmo abrupta, ora subtilmente irónica e com alguma tendência para o understatement, mas sempre pronta a desferir os seus golpes a propósito da realidade portuguesa — uma realidade que o autor conhece bem, embora abordada muitas vezes a partir de um ângulo exterior ou «estrangeirado», se quisermos. A esta perspectiva não será alheio o facto de Eduardo Pitta ter vivido até meados dos anos 70 em Moçambique, numa Lourenço Marques por vezes mais aberta ou cosmopolita do que a Lisboa desses tempos. Da leitura deste romance ressalta com frequência esse olhar estrangeirado, que detectamos sobretudo nas personagens que vêm de fora — ou porque se trata de portugueses que lá viveram, ou porque são eles mesmos estrangeiros. [...] creio que em muitas ocasiões — sobretudo na parte final do romance, quando as personagens ganham maior espessura, maior densidade, maior complexidade humana — assistimos à desmontagem quase cirúrgica de certos comportamentos sociais que os portugueses interiorizaram quase sem dar por isso, o que transforma este livro numa obra relevante também no domínio da crítica social. Por outras palavras, diria que talvez o maior mérito de Cidade Proibida resida na articulação sempre fluida entre dois grandes propósitos nem sequer contraditórios e relacionados entre si: por um lado, o de analisar as características, os hábitos ou os vícios disso que, à falta de melhor nome, podemos designar por comunidade gay; por outro lado, o desejo de proceder a um retrato crítico — por vezes muito acutilante e feito a partir de dentro — de uma certa sociedade portuguesa tradicional e conservadora, exibindo traços fortemente elitistas, e cuja hipocrisia surge denunciada com subtileza através da desconstrução de muitos comportamentos dos seus protagonistas. [...] Uma das qualidades deste romance consiste precisamente em saber que o amor e o sexo costumam ser territórios difíceis e angustiantes, causadores de prazer, mas também de uma grande dose de sofrimento, tanto para homo como para heterossexuais. [...] É todo este quadro mental que o romance de Eduardo Pitta vai dissecando com um bisturi cuja lâmina parece aguçada pelo olhar quase científico de um entomologista que nos estudasse como insectos, como se os nossos comportamentos sociais obedecessem a leis antigas, também elas quase biológicas, que no caso português levaram séculos a estabelecer-se e não se desfazem por decreto. [...] Muitos outros motivos poderia haver para lermos este romance diferente, que de certo modo só poderia ter sido escrito por alguém como Eduardo Pitta nesta fase de maturidade, transmitindo-nos as lições amargas mas serenas de uma experiência acumulada ao longo dos anos — um romance cuja «cidade proibida» equivale a uma certa Lisboa onde tudo parece sujeito às convenientes leis de uma omertà feita de silêncios, de compromissos tácitos, de acordos mais ou menos secretos que no fundo todos conhecem, de segredos que ninguém parece interessado em revelar. E todavia — a um outro nível mais psicanalítico, se quiserem — essa «cidade proibida» pode corresponder também a uma cidade interior e invisível, um reduto recôndito e inexpugnável que cada um de nós conserva algures dentro de si e onde é difícil penetrarmos, a não ser, talvez, a horas mortas, nos momentos em que temos a coragem de olhar de frente para os nossos desejos ou os nossos medos, as nossas angústias ou os nossos fantasmas. Afinal, foi sempre disso que nos falou a literatura de todos os tempos e este romance não foge à regra. Esperemos que a presente reedição lhe faça descobrir novos leitores.

Miguel Real, in «O Romance Português Contemporâneo 1950-2010», Lisboa: Caminho, 2012

Destacaríamos, entre todos, pela tripla configuração da linguagem, da estrutura narrativa e do conjunto de personagens, o romance Cidade Proibida, de Eduardo Pitta, como de necessária e obrigatória leitura.

Nuno Júdice, prefácio de «Desobediência», Lisboa: Dom Quixote, 2011

Desobediência / É sobre uma linha de avanços e recuos que se desenha a poética de Eduardo Pitta, fazendo de cada livro uma sílaba da linguagem da desordem [...] Trata-se de um trabalho sobre o lirismo, na tradição que vem não tanto de Cesário como de Nobre [...] É, portanto, um percurso coerente que subjaz a esta escolha, e que a orienta, sendo de sublinhar esse final rizomático de onde nascem filões diversos que indiciam não ser esta uma poética conclusa, mas em devir, dentro desse modelo de uma fidelidade a modelos e a uma cultura marcada por um sólido conhecimento da tradição, desde a clássica à moderna, dando à poesia de Eduardo Pitta um lugar próprio na literatura contemporânea na nossa língua portuguesa.

Osvaldo Manuel Silvestre, «Aula de Poesia», Revista de Estudos Literários da Universidade de Coimbra, n.º 1, 2011

Aula de Poesia / A publicação de um livro de crítica de poesia pode justificadamente colocar-se sob a égide daquele título com que T. S. Eliot resumiu os problemas que poesia e crítica arrastam, na sua tão-só existência: The Use of Poetry ant the Use of Criticism.  [...]

Eduardo Pitta possui, de modo inquestionável, um dos requisitos do crítico: leitura em primeira mão, vasta e aturada, do corpus da poesia portuguesa contemporânea (e não apenas da portuguesa). Este requisito, que é o momento ético da leitura, combina-se nele com outros, como a capacidade propriamente crítica, isto é, discriminativa e judicativa, de avaliar e seleccionar, bem como um palato muito sensível em questões de gosto. Podemos divergir, como é sempre inevitável quando se trata de um crítico com um trabalho já vasto, das suas valorações, das suas embirrações e paixões, mas é justo reconhecer que a cada caso os excertos seleccionados são pertinentes, argumentativos e reveladores. O trabalho antes referido de leitura e decantação pode parecer menor a certos olhares apressados, mas na verdade é essencial para que a ecologia da poesia se mantenha ao nível exigido numa literatura com séculos de existência e fundada por um género poético medieval. Não cabe, ou não deveria caber, à universidade fazer este papel de filtragem do contemporâneo e da sua avaliação por relação com a tradição. [...]

O trabalho de Eduardo Pitta, que a meu ver tem o seu melhor momento em Comenda de Fogo (2002), talvez pelo empenho patente nos textos reunidos nesse volume, textos que deram de facto uma forte contribuição para o recorte crítico dos anos de entre 1960 e 2000 da nossa poesia, pode a meu ver ser descrito, ainda com a ajuda de Eliot, noutro dos seus grandes ensaios, The Classics and the Man of Letters, naquele momento em que o ensaísta define uma das funções da crítica: «Uma função da crítica… consiste em agir como uma espécie de mecanismo regulador da taxa de mudança do gosto literário». [...]

Eduardo Pitta sempre me pareceu um muito fiável mecanismo regulador da taxa de mudança do nosso gosto poético. [...] Como é sabido, o autor tornou-se entretanto uma figura pública na área do comentário político e cultural e na do «activismo» (com muitas aspas) gay. [...] O trabalho de Eduardo Pitta tende a cristalizar-se em textos para os quais o melhor nome seria o de «perfis» de teor biográfico crítico. Na sua quase totalidade, estes textos não têm título, sendo essa função desempenhada pelo nome do poeta estudado (exceptuam-se os textos sobre antologias, que pela própria natureza do género antológico, tendem também à figura do retrato de autor, embora em versão micro). Nesse modelo, Eduardo Pitta trabalha com grande competência e fiabilidade, fazendo questão de dilucidar problemas de datação, atribuições erróneas, etc. O modelo funciona melhor quando o texto apresenta alguma extensão, por razões óbvias, e parece-me especialmente adaptado a uma pedagogia da poesia na cultura literária da nossa sociedade. O modelo, contudo, embora tendendo ao panteão canónico, não é utilizado de forma neutra pelo autor, já que não custa reconhecer a teoria de autores que aqui surge aqueles aos quais o crítico atribui um lugar mais próximo do seu gosto e afecto. [...]

Lembro, a este respeito, que foi em boa medida a publicação de Fractura, em 2003, que fez com que certos e notáveis compagnons de geração de Eduardo Pitta viessem enfim proclamar a sua condição sexual. Note-se que o meu reparo não obsta a que reconheça a coerência sistémica com que Eduardo Pitta executa Eugénio, já que essa execução faz sentido em contraponto àquilo a que eu chamaria a canonização de Cesariny, que seria manifestamente o «bom exemplo» desta narrativa de emancipação na nossa poesia. Mas faz sobretudo sentido em relação a uma tese forte, que atravessa este livro, e que já antes referi, a propósito da «respeitabilidade» desejada por todos os que hoje acedem à República das nossas Letras [...] O resto, ou aquilo que do que resta me permito ainda abordar, são, para começar, divergências valorativas que não colocam em causa a dimensão conversável do trabalho do crítico. [...] E ainda dívidas, como a que contraí para com Eduardo Pitta já há anos, a respeito de Rui Knopfli [...]

Termino com uma passagem que justifica a leitura deste livro e, antes dele, a leitura da poesia. Surge ela num texto sobre Helga Moreira e, à sua maneira discreta, enuncia os desprezados dramas da enunciação da voz lírica: «Porque, ao invés da legenda, é quase sempre exorbitante o preço que pagamos pela poesia, lá onde ela se confunde com a idade cada um». (p. 98) Fiquemos com esta confusão, desejando que seja essa a lição essencial desta aula de poesia.

António Carlos Cortez, «Desobediência», Jornal de Letras, 2011.

Desobediência / Pitta não é um prosélito, mas antes um polemista, sem ser panfletário, o que mais lhe importa é uma percepção das coisas que conduzam o sujeito a um conhecimento do íntimo e da intimidade. O seu dialogismo, bebido em Larkin ou talvez em [Douglas] Dunn, reforça a construção de um mundo pessoal marcado pelo espanto do corpo e pela não menos espantosa efemeridade da beleza desse corpo amado. A rigorosa construção de uma ironia, jamais exasperada e sempre contida, vem de par com uma sageza do erótico e da palavra que fazem de Eduardo Pitta o construtor de um léxico mínimo, depurado e, ao mesmo tempo  —  porque há imagens fortes, intensas  —, deflagrador de múltiplos sentidos, como se as palavras produzissem, no acto da leitura de um efeito expressivo que deriva daquele expressionismo de que fala Graça Moura, mas que é, quanto a nós, sinal de uma revolta íntima: contra as instituições e contra a Cultura, que se opõe a uma procura da Natureza livre.

Vasco Graça Moura, «Antologia da Poesia Portuguesa do Séc. XIII ao Séc. XXI», Jorge Reis-Sá e Rui Lage (orgs.), pref. de Vasco Graça Moura, Porto Editora, 2009.

O acentuado expressionismo de Eduardo Pitta é capaz de captar nítidas e aceradas imagens do real, numa espécie de antilirismo, porventura bebido nalguma poesia modernista inglesa, que não exclui uma grande intensidade concentrada de verso para verso, contrabalançando a efemeridade inevitável dos momentos evocados sem qualquer sentimentalismo, muito em especial os relacionados com a sexualidade e com o encontro amoroso. O sentimento de apátrida de quem se transferiu de Moçambique para Portugal é também a expressão de uma funda estranheza perante o mundo civil convencionalista e conformado que por cá veio encontrar.

Edgard Pereira, «Cidade Proibida», Colóquio-Letras (online), Lisboa: 2008.

Em foco, o romance Cidade Proibida, estreia produtiva de Eduardo Pitta na ficção de longo fôlego, decisiva contribuição à consolidação do relato de contorno gay em Portugal. A adesão à temática, de forte presença e espessura na produção poética do autor, vem na vertente ficcional desde a admirável trilogia de contos, intitulada Persona (2000). Em roupagem esplêndida, graças a requintado material gráfico e visual. Jogando com uma trama bem elaborada e sofisticada, a envolver figuras do alto mundo de Portugal, Inglaterra e Moçambique, numa linguagem ágil, apta a dizer directamente as coisas e expandir dinamismo e ironia para todos os lados, o romance apresenta um perfil sem retoques da sociedade burguesa contemporânea. [...] Sem incorrer em juízos morais, ao apresentar uma sucessão de burlas, hipocrisia, orgias e desrespeito a princípios éticos de liberdade, o narrador, contudo, não ignora os efeitos devastadores de pequenos sintomas de decadência a solapar os alicerces da sociedade ocidental. Pelo contrário, lá pelas tantas, a mãe do protagonista (sempre elas), por vezes alter ego do narrador, expõe apreensões exasperadas: “Se a reserva de intimidade de um artista cabe toda numa frase kitsch, que juízo fazer da evolução dos costumes?” O ritmo acelerado da acção  —  mínima, por sinal, uma vez que se fundamenta em tomadas retrospectivas  —  implica mudança arbitrária de actores em cena, forçando uma linha de continuidade por vezes superficial, à beira de alguns estereótipos. [...] Ainda que seja ampliado o estatuto do narrador-editor, o congelamento dos dados históricos, culturais e psicológicos das personagens se, de um lado, aponta para uma abertura estrutural, convocando componente do texto dramático, por outro, trai a abertura ficcional, condicionando o leitor a aceitar um dado, cuja coerência, urdidura e pertinência verosímil caberia ao texto apenas desenvolver e demonstrar. Se há um compromisso em arejar as fronteiras da cidade proibida, incorporando vozes silenciadas e o dissenso, por conta de violentas repressões e traumas, não seria demais incorporar uma escrita menos autoritária. Negar o contraditório e sufocar a dinâmica da vida e sua contínua legitimação é generalizar e homogeneizar as relações humanas, as quais, daqui para a frente, tendem cada vez mais a desenvolver um carácter híbrido, impuro, imperfeito.

Henrique Raposo, «Cidade Proibida», Expresso, Lisboa: 2008.

Acabei de reler o primeiro romance de Eduardo Pitta: Cidade Proibida. A impressão inicial mantém-se: do ponto de vista formal, este livro é uma raridade em Portugal. Pitta sabe contar uma história (neste caso, a relação atribulada entre Rupert e Martim). A fluidez narrativa  —  dominante em Cidade Proibida  —  é a técnica literária mais difícil de encontrar na prosa portuguesa, ainda e sempre marcada por obscuras divagações metafísicas. Pitta tem outra característica invulgar entre nós: as suas frases são enxutas e limadas até ao limite. Pitta é um grande poeta, mas é na prosa que poderá marcar a diferença. Cidade Proibida é um bom romance de alguém que revela potencial para escrever grandes romances.

Fernando Pinto do Amaral, «Cidade Proibida», Jornal de Letras, Lisboa: 2007.

A publicação do primeiro romance de Eduardo Pitta representa uma novidade nos dois contextos em que se insere  –  o da ficção portuguesa contemporânea e o da própria obra do autor. [...] Olhemos, então, para esta Cidade Proibida e assinalemos desde logo um estilo pessoal, assente numa escrita ora muito directa e incisiva, por vezes mesmo abrupta, ora subtilmente irónica e com alguma tendência para o understatement, mas sempre pronta a desferir os seus golpes a propósito da realidade portuguesa  –  uma realidade que o autor conhece bem, embora abordada muitas vezes a partir de um ângulo exterior ou estrangeirado [...] o que transforma este livro numa obra relevante também no domínio da crítica social. Para assentarmos ideias, diria que talvez o maior mérito de Cidade Proibida resida na articulação sempre fluida entre dois grandes propósitos nem sequer contraditórios: por um lado, o de analisar as características, os hábitos ou os vícios disso que, à falta de melhor nome, podemos designar por comunidade gay; por outro lado, o desejo de proceder a uma crítica, por vezes muito acutilante, de uma certa sociedade portuguesa tradicional e conservadora, ainda com traços fortemente elitistas, e cuja hipocrisia surge denunciada através da desconstrução de muitos comportamentos dos seus protagonistas. [...] É todo este quadro mental que o romance de Eduardo Pitta vai dissecando com um bisturi cuja lâmina parece aguçada pelo olhar quase científico de um entomologista que nos estudasse como insectos, como se os nossos comportamentos sociais obedecessem a leis antigas, também elas quase biológicas, que no caso português levaram séculos a estabelecer-se e não se desfazem por decreto. [...] Outros motivos poderia haver para lermos este romance diferente, que de certo modo só poderia ter sido escrito por alguém como Eduardo Pitta nesta fase da sua vida, transmitindo-nos as lições de uma experiência acumulada ao longo dos anos.

Helena Vasconcelos, «Cidade Proibida» / «Persona», Ípsilon, Público, Lisboa: 2007.

Cidade Proibida, de Eduardo Pitta, aparece simultâneamente com a reedição de Persona, pequeno volume de três contos que se articulam brilhantemente com esta última obra. Se Persona é um hino à juventude, às novas experiências e à sexualidade triunfante, Cidade Proibida é uma história de adultos desencantados, regidos por preconceitos sociais, materiais e sexuais. [...] O autor remete-nos para os condicionamentos de uma liberdade que se apresenta como um estado de felicidade erótica e de contentamento estético mas que, quando alcançada, se revela fugaz e impermanente. [...] Os heróis líricos e dramáticos deste Romeu e Julieta contemporâneo são Martim e Rupert, amantes que tacteiam no escuro sem encontrar o entendimento e a razão. [...] De Martim passa-se para a figura de Afonso nas páginas de Persona. Como o próprio título indica, Pitta remete o leitor para as máscaras usadas no teatro grego [...] e para as misteriosas e insondáveis máscaras africanas. No último conto, Afonso, já a cumprir o serviço militar, em 1970, é protagonista de um caso que o leva à prisão (militar) pelo seu envolvimento sexual com outro homem. O autor desfaz tabus e põe a nu a instituição militar e o absurdo da guerra. Dos três contos, este é o mais eficaz, atravessado por uma beleza estranha e pungente, aliada a uma crueza que revela os meandros de uma sociedade que se entregava a todo o tipo de práticas, mascaradas por uma “civilizada” e educada camada de hipocrisia. [...] Será necessário falar da temática gay na obra de Eduardo Pitta? Podemos colocá-lo a par dos escritores canónicos que são analisados à luz desses estudos: Oscar Wilde, Thomas Mann, E. M. Forster, André Gide, Jean Genet, Christopher Isherwood, William Burroughs, Gore Vidal, Carson McCullers, James Baldwin, Djuna Barnes, Marguerite Yourcenar, que se juntam aos contemporâneos David Leavitt, Jeanette Winterson, Sarah Waters, Jim Grimsley, entre muitos outros. Pitta aproxima-se do celebrado Allan Hollinghurst que ganhou o Booker Prize com A Linha da Beleza, um clássico do género, onde se cruzam as tensões sociais, familiares, políticas, sentimentais e físicas (com o eclodir da Sida). De acordo com Richard Hall, autor de antologias de textos gay, este género mudou desde o fim da 2.ª Grande Guerra, passando de «uma literatura da culpa e da desculpa para uma de desafio político e de celebração da diferença sexual». Pitta segue, decididamente, esta segunda tendência e tem, a seu favor, vastos conhecimentos de Literatura que entrelaça com habilidade na sua própria ficção. Mas enquanto que, basicamente, a trama de Cidade Proibida, tanto poderia ser construída entre dois homens, duas mulheres ou uma mulher e um homem, a dos contos em Persona é vincadamente e triunfantemente gay, muito mais excitante, vigorosa e reveladora. A obra de Eduardo Pitta é corajosa, desassombrada, inteligente, clara e escrita com paixão e sabedoria. É difícil, na Literatura Contemporânea, ler um bom livro em que se fala livre e fulgurantemente de sexo, do prazer erótico e da transgressão. E, também, da perda. Eduardo Pitta fá-lo com a mestria de um grande narrador.

João Villalobos, «Cidade Proibida», Blitz, Lisboa, 2007.

Com a homossexualidade como pano de fundo, Eduardo Pitta retrata neste romance singular uma Lisboa de privilegiados, onde o amor ocupa um lugar sempre periclitante. [...] Com uma tessitura que atravessa mais de 40 personagens, Cidade Proibida é uma história com muitas histórias lá dentro. Cada uma das figuras carrega com ela um passado, um meio, uma educação que as agrupa em famílias de sangue ou de afinidade, núcleos irredutíveis e protegidos por densas muralhas. [...] Com um peso exagerado dos estrangeirismos compensado por um conhecimento profundo dos hábitos e costumes do meio que retrata, Eduardo Pitta não condescende com sentimentalismos ou redondilhas. O sexo é apresentado a cru, os tiques mostrados sem contemplação, a História portuguesa recente mencionada sem pruridos ou filtros de boa consciência. Por tudo isto, obra de «género» ou não, Cidade Proibida é um romance igual a poucos.

Henrique Raposo, «Persona», Atlântico, 2007.

Persona, livro de contos de Eduardo Pitta, agora reeditado, a par da edição do primeiro romance do autor, Cidade Proibida. Quem colocar este livro no gueto da literatura gay não está a ver o filme todo. O que mais interessa na escrita de Pitta é a forma. Pitta poderia escrever sobre a epistemologia do pinguim, que seria bom na mesma. Pitta escreve de uma maneira quase inédita para a prosa portuguesa: frases cruas, secas, duras, limadas e cortadas até ao limite. Um assomo de clareza numa terra de palavrosos. A clareza, em Portugal, é rara. Sena, Eça, Nemésio, Carlos Oliveira (os primeiros). E pouco mais. Tenho sempre a impressão que os prosadores portugueses querem ser russos no mediterrâneo. O escritor português típico acha que cortar texto é pouco edificante; deve achar que uma frase saída do seu génio não pode ser cortada, limada, deitada fora. Por isso, a nossa prosa é o que é: medíocre [...] Pitta choca com tudo isto. A escrita de Pitta mostra que o português não está destinado a ser prisioneiro do obscuro, do ininteligível.

Ana Cristina Leonardo, «Cidade Proibida», Expresso, Lisboa, 2007.

Seria Bovary uma personagem mais interessante se Flaubert não fosse, lui-même, Madame? Teria Karenina falhado o comboio se Tolstoi, ao invés de longas barbas, usasse saias? [...] O assunto tem a complexidade que lhe quisermos atribuir. Neste caso, vem a propósito da recente ficção de Eduardo Pitta, Cidade Proibida, um livro ao qual anda por aí colado o epíteto de romance gay. [...] Cidade Proibida é muito mais do que uma história de amor sem final feliz entre dois homens, mesmo sendo verdade que «the novel tells a story». Retrato de um meio social solipsista, cheio de gente enfatuada e cautelosa, o livro é uma assumida crítica de costumes, que sabe que a palavra [...] «exige ser posta em confronto com um mundo que possua uma realidade própria.» [...] No conjunto, é um texto rápido e nervoso, onde os desvios históricos (acompanhados de notas) reforçam uma filiação contemporânea, mas que peca por não levar mais longe o cinismo. Linguístico e filosófico. Teríamos um livro à medida do seu óptimo epílogo.

José Mário Silva, «Cidade Proibida», Diário de Notícias, Lisboa, 2007.

Poeta, crítico, ensaísta e blogger – com presença diária no blogue Da Literatura, de onde saíram os textos do volume Intriga de Família, recém-editado pela Quasi –, Eduardo Pitta é uma das vozes mais ácidas e contundentes do panorama cultural português dos nossos dias. Erudito e blasé, polémico e sem papas na língua, atento à actualidade e rápido a reagir, escreve sobre tudo e mais alguma coisa (do S. Carlos à Ota, passando pelos melhores restaurantes), com um desassombro que lhe causa não poucos engulhos num meio habituado a mesuras, verniz e salamaleques. Embora a sua obra remonte a 1974 [...] estreou-se na ficção apenas em 2000, com Persona, um conjunto de três narrativas breves que deu à estampa numa editora discreta – a Angelus Novus, de Coimbra – e que republicou agora na QuidNovi, antecipando o lançamento do seu primeiro romance: Cidade Proibida. Uma coincidência que faz todo o sentido e não foi certamente fruto do acaso. Porque o que Persona deixava antever é o que Cidade Proibida confirma: a emergência de um narrador sólido, sem debilidades de principiante nem tiques de consagrado, capaz de contar uma história com precisão e lhaneza – coisa raríssima em Portugal. Além disso, há evidentes pontos de contacto entre as duas obras. Se Persona era o retrato nítido, em três etapas bem marcadas no tempo, da formação da identidade homossexual de Afonso Cordes Sacadura, com a decadência do império colonial em Moçambique como pano de fundo e uma crítica explícita a dois universos repressivos (a escola e o exército), em Cidade Proibida deparamos com um fresco ao mesmo tempo minucioso, cruel e desencantado da sociedade portuguesa contemporânea. Ou, para sermos mais exactos, de uma certa faixa da sociedade portuguesa: a upper-class que vive fechada numa redoma, algures no eixo que vai das mansões da Linha à Lisboa das elites, reduzida ao «triângulo cujos vértices» passam pelo «Príncipe Real, a Praça das Amoreiras e o Saldanha». Pitta demonstra conhecer muito bem este mundo de pessoas com apelidos sonantes [...] altivos, snobes, quase todos hipócritas, convictos da sua superioridade social e «imunes ao quotidiano». É neste cenário etéreo que arquitecta a sua história de desagregação amorosa, focada na relação de um casal gay – Martim / Rupert – sujeito tanto às pressões do meio (Martim) como a um cocktail de ressentimento classista e sombras de um passado mal resolvido (Rupert). O que mais impressiona no romance de estreia de Pitta é a admirável desenvoltura da prosa (que se lê numa vertigem), a elegância estilística e o domínio das técnicas narrativas. Há um fio de acontecimentos que se sucedem na Lisboa do início do séc. XXI, subtilmente marcados pela História (dos traumas coloniais ao 11 de Setembro), e uma série de flahsbacks que se encaixam no puzzle com uma justeza próxima da perfeição. O resto – e não é pouco – tem a ver com a coragem de escrever sobre sexo da forma mais gráfica possível, sem eufemismos, abrindo de vez o caminho para a afirmação de uma literatura homossexual à la page com o que de melhor se publica lá fora, nomeadamente no Reino Unido (cf. Alan Hollinghurst). Não tenho dúvidas aliás de que Cidade Proibida, se Pitta fosse inglês, seria facilmente candidato ao Booker. Mas será que teria (ou terá) hipóteses, em Portugal, de ganhar um merecido prémio da APE? Duvido muito.

Lauro António, «Cidade Proibida», Lauro António Apresenta..., 2007.

Devo confessar: comprei o livro sem grandes esperanças, nem desesperanças. Nada sabia do autor a não ser que era nosso companheiro da blogosfera, que assinava e escrevia, quase na íntegra, um bom blogue, Da Literatura, e que lera dele, aqui e ali, críticas literárias interessantes. Chama-se Eduardo Pitta, o romance de estreia é Cidade Proibida, e, pelo que percebi ao folheá-lo na Fnac, é uma obra daquelas que muitos vão catalogar de literatura gay e colocá-la na banca assim denominada. Esta classificação parece-me de todo inqualificável, a não ser para facilitar vendas: os gays que procuram literatura gay vão àquela banca e escusam de se perder no meio da literatura hetero. Mas haverá literatura gay? Oscar Wilde e E. M. Forster são literatura gay? E Somerset Maugham? E Jean Cocteau? Ou serão simplesmente literatura? Para mim basta-me que seja boa literatura, muito boa mesmo. Ora Eduardo Pitta surpreendeu-me em toda a linha. Li Cidade Proibida de um fôlego, e não por ser gay, e não também pela história que conta, mas sobretudo pelo estilo, pela vertigem da narrativa, imparável, pelo toque blasé, mesmo um pouco snobe que impõe e mantém com uma frescura notável ao longo de toda a obra, e que relembra o magnífico dandismo de Oscar Wilde, aqui retocado por um look muito pós-moderno. Óbvio que também se pode chamar à conversa o Maurice, de E. M. Forster, mas curiosamente a escrita lembrou-me mais a de alguns escritores americanos da década de 90 [...] Há um gosto pelo rigor matemático na escrita que poderia ser fastidioso, mas funciona precisamente ao contrário, é exaltante. Não há muitos pormenores, a escrita corre ágil, mas há uma precisão insuspeitada. Um exemplo à sorte do abrir da página: «Nessa tarde não voltou ao Instituto. Andou a pé horas a fio e só quando o corpo cedeu descansou num banco do Campo dos Mártires da Pátria. Depois foi à Trindade comer um prego e a seguir meteu-se na sauna do Largo da Misericórdia.» Um rigor que leva o autor a abrir o seu romance com uma Tábua de personagens onde refere e sinaliza cada personagem e cada família [...] O que transforma este romance, para mim, numa das revelações dos últimos anos. É evidente que temos de fazer uma referência ao teor homossexual do livro. Obras “maricas” é o que há cada vez mais. Escritas amaricadas, “poéticas”, como que a desculpar “a coisa” com o sentimentalismo balofo das “emoções em êxtase.” Aqui não há nada disso, esta é uma história de amor e sexo igual a qualquer outra, o realismo de certas situações quase faz esquecer que os amantes são do mesmo sexo. São pessoas que fazem sexo. Assumidamente. Sem má consciência. De resto as descrições deste tipo são as que são, as precisas, as indispensáveis, não se especula com o facto. Um excelente romance de um autor nascido em Lourenço Marques a 9 de Agosto de 1949, e que viveu em Moçambique até Novembro de 1975. [...]

Fernando Venâncio, «Cidade Proibida», Aspirina B, 2007.

O primeiro grande romance gay da nossa literatura, acabou por escrevê-lo Eduardo Pitta. [...] Haveria de ser Eduardo Pitta, com esta Cidade Proibida, acabada de sair na Quid Novi. Do contista de Persona (2000, agora reeditado) poderia já esperar-se a façanha. Mas as grandes obras são sempre uma surpresa. O livro é um must. E não só pela temática (sempre curiosa, mas nunca garantia de qualidade), como sobretudo pela valente respiração de que o relato se toma. Os lugares, as épocas, os ambientes, tudo rodopia com nitidez, com embalo, com vertigem (só aqui e ali excessiva para a concentração comum, como a deste leitor), criando sabiamente expectativas, conferindo colorido a personagens e brilho a episódios. Assinale-se a crua limpidez do vocabulário erótico. Assinale-se, também, a abrupta e bem gerida inclusão, em existências queque, do elemento bas fonds. Lamente-se, sim, a frívola atracção das etiquetas, a obsessiva pose dos livros, da música, dos vinhos, das iguarias, da hotelaria, dos diplomas, que roça a obscenidade na descrição dum jantar volante, quase a meio do livro. O leitor verá. E tentará perceber porque é que – banal exemplo – haverão uns sneakers de ser tão fatalmente Louis Vuitton. Ninguém morre. Ninguém fica com ninguém. E os primeiros amores, mesmo se proletários, revelam-se, embora definitivamente perdidos, os verdadeiros. Definitivamente perdidos? A estas alturas do campeonato (perdoe-se o registo), a malta cheira as sequelas. De momento, basta esta Cidade Proibida para encher as medidas.

Edgard Pereira, «Os Dias de Veneza», Scripta, n.º 19, Pontífica Universidade Católica de Minas Gerais, Belo Horizonte (Brasil), 2006.

Em seu recente Os Dias de Veneza, Eduardo Pitta dá a lume as anotações alusivas a cinco dias passados na cidade dos canais e vaporettos. O resultado ultrapassa o eventual registo de impressões de um viajante culto [...] em sua aparente simplicidade, Eduardo Pitta apresenta um dinâmico e refinado discurso sobre aspectos históricos, arquitectónicos, culturais e gastronómicos de Veneza, produzido ao sabor do contacto e da breve permanência na cidade, acrescido de notas climáticas e de irónicos comentários a respeito da voracidade turística ou da fatuidade das relações humanas. [...] A ordenação textual [...] distancia-se das narrativas íntimas, propícias ao exercício da sondagem introspectiva [...] Se o diário não tem uma técnica peculiar, prestando-se a uma diversidade de enfoques, da crónica à poesia, do ensaio ao relato, sob a chancela de Eduardo Pitta mostra-se erudito, ágil, elegante. A literatura em língua portuguesa alcançaria um significativo legado, caso o autor, intelectual polivalente, articulado em inúmeras esferas do saber, a ele se dedicasse em novos projectos.

Paulo Simões Mendes, «Os Dias de Veneza», Mil Folhas, Público, Lisboa, 2005.

Muito se escreveu sobre La Serenissima. Chegou a vez de Eduardo Pitta, que conhecíamos como poeta, ensaísta, crítico e contista, e agora nos dá um breve diário veneziano. Os Dias de Veneza começa no dia 12 de Setembro de 2004 e, logo a abrir, o autor escreve: «Fez ontem três anos o mundo mudou. Começou uma nova era, mas nem por isso o passado desapareceu. Em que outro lugar senão Veneza o saberemos?» Está dado o tom. E se a narrativa tenta evitar o confessionalismo, nunca evita a mordacidade. Em estilo fluido, a inscrição de locais, datas e horas não indicia comprometimento íntimo. As breves excepções acham-se no aniversário do companheiro, com quem viaja, e no episódio de transfert provocado pelo encontro com o casal alemão que viveu em Moçambique: «Um gesto bastou. Viram que barrava os camarões com manteiga, velho hábito laurentino, e o transporte consumou-se. Estão lá outra vez. Nenhum deles diz Maputo, dizem sempre Lourenço Marques. Confessam-se presos às recordações desses anos. ‘Os mais felizes da nossa vida’. Não esqueceram nada.» [...] A estratégia passa pelo corte da exposição excessiva. Pitta sempre dominou a elipse. [...] A colagem ao real não anula o carácter ficcional, através da perspectiva subjectiva e digressiva do sujeito que percorre Veneza e a sua história. É neste sentido que se inserem as notas sobre locais emblemáticos [...] A ida ao Grassi provoca um desabafo: «O pior é a turba. Curioso. No Palazzo Ducale não haveria cem pessoas. Na retrospectiva Turner metade, e o resto do Correr vazio. A colecção Guggenheim tinha bastante mais que os outros, mas também era outro tipo de visitantes, nem miudagem nem grupos organizados com guia palrador. Hoje de manhã, desabou tudo no Grassi.» Vêm a propósito as invectivas sobre ‘os turistas de pacote’. Citando Brodsky, o narrador não os poupa à classificação de «manada», exprimindo aversão a viagens organizadas por terceiros. Sobre a «febre» das gôndolas, um comentário exemplar: «Agora os turistas vão aos molhos (é mais barato a dividir por seis), a maioria sem saber para onde, sorriso afivelado à posteridade hi-tec.» Nestes comentários abunda a ironia e o homoerotismo: «O Gritti [...] tem o bar repleto de ingleses déclassé que dão gorjetas de cem libras. Como todos têm a heterossexualidade bem alardeada, não se coíbem de apalpões no rabo uns dos outros. O staff não mexe um músculo da cara»; ou, no recinto da Biennale, «A loja é território de descarado camping. Camping, como se dizia em África, ou seja, cruising, tal como fixaram os gay studies.» Pitta detém-se a descrever a gastronomia local e os ambientes, muitas vezes esplendorosos. O elitismo do autor é uma forma de consciência de classe que suscita o tipo de mitificação que associamos a Veneza. Tudo serve para agitar a imaginação e conduzir ao devaneio. [...] A melancolia é revertida pela grandeza da experiência e pelo investimento no diário, forma de contrariar o tempo e combater a memória fugaz, congelando o passado filtrado já pelo presente da escrita. Num relato subjectivo e visual, afluem os comentários sobre os espaços, as pessoas, as manifestações de gosto, a sexualidade. A exaltação de Veneza não se limita a isso, pois realça a vivência do sujeito, testemunha a colagem do corpo àquele lugar, e daquele lugar à memória e ao modo como se passa a ver o mundo. Ao fim e ao cabo, tudo isto tem que ver com a experiência única e irrepetível da água e do tempo.

Edgard Pereira, Revista do Centro de Estudos Portugueses, n.º 34, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, Brasil, 2005.

O título Persona origina-se do latim, referindo a antiga máscara dos actores. [...] A trilogia de contos de Eduardo Pitta mistura a evocação da guerra colonial em Moçambique, distanciada do natural enquadramento político, à liberação do corpo e da sexualidade, num contexto-limite de trocas culturais e reciprocidade. [...] A contiguidade da libertação política e da concepção libertária da sexualidade é percebida pelos aparelhos estatais (entenda-se imperiais) como o desmoronar de um domínio que se imaginava consistente e eterno. O último conto atinge em cheio as estruturas supostamente sólidas do Império luso, ao revelar criticamente o lado pouco convencional de um quartel, desvelando a sexualidade nada exemplar de diversos e notáveis actores sociais [...] Os outros lugares focados na trilogia, a escola e o deserto, não são menos significativos no diagnóstico de uma literatura caudatória das preocupações (a)moralizantes da escrita libertina do século XVIII. [...] Eduardo Pitta vem construindo uma obra em três vertentes: na poesia, no ensaio e, mais tardiamente, na ficção. [...] Assinalável o seu trabalho pioneiro no âmbito dos gay studies em Portugal, com a publicação de Fractura. A Condição Homossexual na Literatura Portuguesa Contemporânea (2003). Surpreende esta sua estreia, pela desenvoltura como constrói numa linguagem ágil, dinâmica, num português globalizado, receptivo a expressões inglesas, francesas e crioulas, uma ficção alegre e ousada, refinada e demolidora, irónica e encharcada de cepticismo. Ninguém percebe que antes atravessou o aparentemente plácido jardim da poesia [...] sem temer o lado vulgar da realidade, a marca da lama ou do lodo, sem intimismo pegajoso, sem o tom de vítima por apalpar a lama ou o lodo, quando necessário.

José Mário Silva, Diário de Notícias, Lisboa, 2005.

Escrever sobre Veneza – a Sereníssima – implica sempre um grande risco. [...] Ciente dos riscos, o poeta e crítico Eduardo Pitta não deixou, mesmo assim, de publicar em livro o seu diário veneziano [...] e convém desde logo destacar a sua coragem. Mais do que um caderno de apontamentos pessoais, Os Dias de Veneza apresenta-se como o "relato de um epicurista na cidade dos Doges". E é disso que se trata, literalmente o "epicurista" a exibir as suas idiossincrasias de bon vivant, tendo a "cidade dos Doges" como luxuoso pano de fundo. Quem estiver à espera de algo mais substancial do que as extravagâncias previsíveis de um dandy ávido de requinte, deve procurar noutro lado. Aqui e ali, Pitta deixa-se inebriar pelos belíssimos nomes italianos das ruas ou das igrejas e a escrita transforma-se numa espécie de toada cantabile [...] Pitta é, indiscutivelmente, um cronista atento e subtil, mestre na arte da elipse. Por exemplo, a forma como introduz a nostalgia de Moçambique [...] consegue ser confessional sem o expor demasiado. E os flashes em que narra jogos de sedução nocturnos, com sexo na sombra e vultos ajoelhados em "libações pagãs", são do melhor que a literatura gay tem para oferecer. Acontece que o livro não respira, sufocado pela pose blasé do seu autor. [...] Nada contra. Mas é pena que um provável bom livro de viagens se transforme assim, ingloriamente, num pretensioso Lonely Planet para ricos.

Mark Sabine, «Fractura» / in «The Twilight World of the Lusosexual: Exploring Sexuality in Portuguese-Language Literatures», Journal of Romance Studies, Volume 5, Number 2, London, 2005.

The timeliness of Lusosex’s appearance is confirmed by the recent publication of what is perhaps the first history of Portuguese literary homosexuality. Eduardo Pitta’s Fractura is a short but well proportioned survey that implicitly – and very persuasively – proposes the delineation of a national canon of representations of male homosexuality in twentieth-century letters. For Pitta, homosexuality emerges as a recognizable, if diffuse and often dissimulated, identity in the poetry of António Nobre, Pessoa and António Botto, and in particular in Sá Carneiro’s ‘inquietante jogo de espelhos’ [‘disquieting game of mirrors’] A Confissão de Lúcio (1913) [Lúcio’s Confession] (Pitta 2003: 12). By the mid-century, and despite the oppressively normative sexual ideology of the Estado Novo, there exists a gamut of identities and styles of expression. This runs from the ‘perfil hierático’ [‘hieratic profile’] of Eugénio de Andrade – long revered by gay and straight readers alike for his delineation of desire for a non sex-specific muse – to the camp and, under Salazar, often unacceptable candour of Mário de Cesariny (2003: 10). Pitta devotes considerable attention to the often perceptive and sympathetic depiction of homosexuality by (presumed) heterosexual authors, including Eça, Nemésio and especially Jorge da Sena. As Pitta illustrates, da Sena’s depictions of poorly disguised sexual ‘deviance’ and of homophobic anxiety are remarkable for more than the progressive credentials of their critique of the Estado Novo’s narrow and intolerant prescription for exemplary masculinity. Sena’s sensitivity to homosexual men’s experience of alienation and persecution constitutes an effective point of departure for the critique of a more generalized paranoia about belonging and about difference under (pseudo)-Fascist rule. Like Quinlan and Arenas, Pitta is alert to the political implications of imposing anglophone labels on lusophone culture, and he stresses some specifically Portuguese characteristics and contexts of the literary corpus that he identifies. His consideration of the fiction of Guilherme de Melo, for example, focuses especially on how the represented dalliances between settlers, army conscripts and natives in 1960s Mozambique critique, pervert, but also replicate the particular generic and racial hierarchies ordering Portuguese colonial society. Nevertheless, the pull of foreign cultural models is acknowledged. Pitta organizes his survey around his attempt to stabilize Portuguese definitions of the increasingly well-established loanwords ‘homossexual’, ‘gay’ and ‘queer’. Moreover, he bases his distinction between literatura homossexual and literatura gay on reference to what he considers the global watershed precipitated by the 1969 Stonewall riots in New York (2003: 29). Despite the increasing acceptance and visibility of a gay subculture in Portugal, Pitta argues, there has to date been ‘nenhum escritor português gay’ (2003: 29) [‘not one gay Portuguese writer’]. Rather, Pitta finds traces of ‘uma identidade sexual e social gay’ (2003: 19) [‘a gay sexual and social identity’] in the work of a tiny handful of lyric poets: in Joaquim Manuel Magalhães’s elegiac yet angry allusions to the AIDS pandemic, in the darkroom and bath-house metaphysics of Armando Silva Carvalho, or in the exuberant consciousness of the gay body in Luís Miguel Nava. Prominent amongst this coterie is, unsurprisingly, Al Berto. While Pitta sees Al Berto’s work as pioneering the representation in Portuguese literature of homosexuality on its own terms, he stresses that its principle focus is not a gay lifestyle but the queer and counter-cultural subversion of a prevailing patriarchal orthodoxy. Pitta rejects a conclusion of Portuguese cultural ‘backwardness’ with the argument that the nation’s writers simply feel no compulsion to invest in the ‘superação semântica da identidade do desvio’ (2003: 31) [‘the semantic transcendence of an identity of deviation’] – presumably because Portuguese homoerotism has mostly been too invisible to get branded as deviant. I say ‘presumably’ because Pitta’s conclusion is exemplary of the frustratingly elliptical nature of his absorbing study. There is so little space for the exploration of so many highly original, and often provocative, insights. Frequently one itches to engage the author in debate, and to develop fully the lines of inquiry that he deftly outlines. One hopes that this provocation will help draw forth the protracted scholarly attention that the subject of homosexuality in modern Portuguese literature merits.

Maria Augusta Silva, Diário de Notícias, Lisboa, 2005.

Eduardo Pitta trouxe à poesia dos anos 70 uma força nova, quando surgiu com o primeiro livro Sílaba a Sílaba (1974). Somaram-se poemas desafiantes e de igual intensidade nos dois grandes territórios do poeta: o do corpo, que assume na plenitude os signos homoeróticos  -  «E só agora / tu e eu sabemos / da urgência do / amor»; e o de apátrida ou exilado, no sentido de ser um homem de duas pátrias apartadas: Moçambique, onde nasceu na então Lourenço Marques, e Portugal para onde veio em 1975. «Eu diria dos apátridas que somos / daquela pátria que nos sobra.» São versos que integram Poesia Escolhida, de Eduardo Pitta, edição do Círculo de Leitores, em que o poeta alinhou poemas feitos entre 1971 e 1996. Se já na antologia pessoal Marcas de Água (1999) podemos ter uma noção ampla do trabalho poético de Eduardo Pitta, agora que passam mais de três décadas de uma criatividade repartida [...] pela poesia, ficção, ensaio e crítica literária, o volume Poesia Escolhida alarga não apenas esse conhecimento como permite uma avaliação porventura mais atenta do conteúdo, da imagística, da estrutura e dos ritmos físico e psicológico do autor. Ao coligir poemas de 25 anos de escrita e de obras há muito esgotadas, e mesmo sabendo-se que a escolha está longe de abarcar toda a produção do escritor nesse período, Eduardo Pitta voltou a propor «a linguagem da desordem», expressão que deu título ao seu livro de 1983 [...] no qual há «alguns mortos de intervalo», mas a dizer-nos, igualmente, que «As cidades fazem-se todos os dias.» Poeta conciso, poeta da síntese que sabe a pulsão eficaz da metáfora e o longo alcance da brevidade, do instante, é na comunicação dos contrastes, no «grito gritado ao contrário», no discurso tenso da memória, da errância, do amor e do desejo que Eduardo Pitta demanda o jogo de espelhos. Um jogo cruento pela energia do olhar e da palavra, por uma ácida lucidez que se cumpre no domínio absoluto da transfiguração: «Temos que baste: a pátria à janela / e a vontade na cama»; ou ainda: «Quando te encontro, / girassol do meio-dia, / baloiça-te na voz / um desejo de tâmaras / Inclino-me e soergo-te, / transpiras e dás fruto.» Eduardo Pitta, esquivo à retórica, tem uma oficina poética sólida, com o poder sugestivo e cáustico de um Baudelaire, com a depuração de Yeats. Sempre contida, na poesia do autor de obras como Um Cão de Angústia Progride plasma-se, ao mesmo tempo, e num estilo elíptico, o fulgor e o silêncio, a lâmina e a alma, a sedução e a ironia. Um ritmo que encontramos, também, na sua arte de crítico e de ensaísta.

Vasco Graça Moura, in «Memórias dos Dias na Poesia Portuguesa», Diário de Notícias, Lisboa, 2005.

Poesia «firme, brusca e breve, feita de palavras poucas», assim caracterizou Eugénio Lisboa a de Eduardo Pitta, cuja obra tem vindo a manter as características de um expressionismo acentuado, capaz de captar nítidas e aceradas imagens do real, numa espécie de anti-lirismo, porventura bebido nalguma poesia modernista inglesa, mas que não exclui uma grande intensidade concentrada de verso para verso, como que para contrabalançar a efemeridade inevitável dos momentos evocados sem qualquer sentimentalismo, muito em especial os relacionados com a sexualidade e com o encontro amoroso. O sentimento de apatrídia («Apátridas que somos / daquela pátria que nos sobra») não tem apenas a ver com a tardia radicação em Portugal [...] É, talvez mais do que isso, a expressão de uma funda estranheza perante o mundo civil convencionalista e conformado que por cá veio encontrar [...].

António Fernando Cascais, «Apresentação» e «Um nome que seja seu: Dos estudos gays e lésbicos à teoria queer», in «Indisciplinar a Teoria. Estudos Gays, Lésbicos e Queer», Lisboa: Fenda, 2004.

Eduardo Pitta teve o mérito de iniciar, entre nós, este debate, e a um nível de inquestionável qualidade, ao mesmo tempo que passou a ser percebido como o introdutor, mais ou menos «oficial», dos estudos gays no nosso país. [...] Ora a mais importante de tais é a de Eduardo Pitta, que, com o seu livro Fractura. A Condição Homossexual na Literatura Portuguesa Contemporânea (2003), inaugurou, pelo menos de modo reconhecido publicamente, a divulgação dos estudos GLQ no nosso país. Uma ou outra fragilidade deste texto tem necessariamente que ser menorizada ante o valor que ela representa, e não apenas simbolicamente. Poeta e ficcionista, o autor abre agora um debate que estava para cair  —  e apodrecer  —  de maduro nos meios intelectuais, críticos e universitários.

Paulo Simões Mendes, Canal de Livros, 2004.

Metal Fundente / Na crítica em volume, este é o terceiro livro de Eduardo Pitta, depois de Comenda de Fogo (2002) e Fractura. A Condição Homossexual na Literatura Portuguesa Contemporânea (2003). Ao seleccionar os textos para Comenda de Fogo, Eduardo Pitta preocupou-se em escolher os mais breves, todos publicados na LER, enquanto que para Metal Fundente escolheu os mais longos, com publicação dispersa, o que torna as obras complementares. Há, portanto, afinidades e diferenças entre os dois volumes. Liminarmente, a crítica de Eduardo Pitta possibilita o mapeamento dos seus interesses não só enquanto crítico, mas também enquanto poeta, o que não é de somenos para um escritor com a sua obra [...] Metal Fundente persegue um propósito definido: os ensaios [...] são dedicados individualmente a autores consagrados, a maioria do século XX, quase todos poetas [...] Não se estranhe o contínuo diálogo entre a biografia e a obra do autor, base de análise deste crítico: o perfil biográfico é inseparável da recepção e leitura da sua obra [...] Conhecendo a poesia de Pitta, facilmente se contextualiza o que acima se afirma: «Eu diria dos apátridas que somos / daquela pátria que nos sobra» [...] Mais: a questão do exílio é transversal a toda a poesia de Pitta, pelo que este é simplesmente o exemplo mais directo e evidente. Facilmente se compreende a perspectiva do exílio com o avançar da leitura do ensaio, que serve para Pitta referir a educação de Kavafis e Pessoa, com desfechos opostos nos dois poetas [...] O segundo motivo por que é central este ensaio tem que ver com o corpo, na perspectiva acima assumida: o corpo entendido na sua totalidade, físico, carnal, desejador e criador de desejo, ferido, intocado, perfeito ou imperfeito, etc. Ele serve de ponte para o crítico falar da assunção da identidade sexual de Kavafis e da máscara envergada por Pessoa. Não negligenciemos que este é outro ponto central na obra de Eduardo Pitta (corpo, identidade, máscara); «alguma razão haverá», afirma o autor na sua página de acolhimento na web.

Pedro Sena-Lino, supl. Mil Folhas, Público, Lisboa, 2004.

A recepção crítica de Fractura... [...] é já um «case study». A artilharia crítica tem-se debruçado, com espantosa tresleitura, sobre três aspectos absolutamente laterais ao texto. Em primeiro lugar, a crítica à deriva metodológica da própria área de estudos da teoria «queer», de que Eduardo Pitta utiliza o protocolo e o sistema [...] Um segundo aspecto prende-se com a leitura «moral» de determinados autores [...] A leitura «queer» surge, portanto, como fractura [...] Esta parece-me ser a terceira questão: a definição prévia, o denominador mínimo comum, do que os vários lados da barricada podem entender como o objecto dos estudos «queer» [...] Pitta descobre vários motivos, muitos dos quais impressionantes pela sua omnipresença no imaginário português [...] A identificação de supressões que este livro pratica é necessária e revivificadora, apesar das idiossincrasias dos estudos «gay» que podem ferir a sensibilidade (ou o rigorismo teórico) de alguns leitores [...] Discorde-se do objecto ou não, a existência deste ensaio é desde já um marco cultural.

António Guerreiro, Expresso, Lisboa, 2004.

Em Portugal, os «Queer Studies» são quase inexistentes. Um livro de Eduardo Pitta, Fractura... [...] tem, neste domínio, um papel pioneiro, entre nós. Esse é o seu mérito [...] Estranha «queer reading» esta, que se exaspera com as subtilezas dos textos, em vez de procurar precisamente nos caminhos desviados e produtores de efeitos uma escrita atravessada por um desejo e por relações de sentido que exigem uma subtil hermenêutica [...] É fácil perceber a razão destes equívocos: Eduardo Pitta está mais interessado em atribuir «identidades» do que em encontrar formas de escrita. Deste modo, ele não podia estar mais refém da categorização normativa do discurso heterossexual.

António Jorge Ramalho, Canal de Livros, 2004.

Segundo o Dicionário Latim Português (Porto Editora), o significado de persona é máscara. [...] Se máscara é a «form of disguise usually worn over the face to disguise the identity of the wearer» (The Wordsworth Dictionary of Beliefs and Religions), é também personagem e, finalmente, pessoa. Considerações a propósito de Persona, livro de ficção de Eduardo Pitta [...] A minha sugestão é que a orientação moral começa no título [...] e termina na pessoa, i.e., em Afonso, protagonista de Pesadelo. Note-se que escrevi protagonista de Pesadelo e não dos dois primeiros contos, porque só no último é que a personagem atinge plenamente, na minha opinião, a independência de espírito que o eleva à categoria de «pessoa», aqui entendida como um distanciamento crítico em relação aos elementos culturais necessários à construção do «Eu». O movimento progressivo começa com o aviso de Eduardo Pitta: «Qualquer semelhança com pessoas e factos é mera coincidência». A afirmação do autor resulta não só na anulação de hipotéticas identidades civis, enquadradas num espaço e num tempo finamente definidos, mas também na atribuição de características e comportamentos a um conjunto alargado de indivíduos [...] A identidade, intimamente associada à sexualidade, é assim problematizada [...] O resultado é uma visão desencantada. Após o sonho de uma irmandade masculina, baseada na identidade sexual e representada pelo hedonismo pós-stonewalliano, Afonso constatará que nem todas as características humanas são passíveis de transformação através de uma hipotética revolução sexual. A passagem é antológica: «Juntos [Lucas e Mateus], odiaram o frio e as bichas enconadas do Monte Carlo, um santuário daqueles tempos de segregação. 'Estão divididas em três grupos, o da TAP, o da ópera e o do teatro experimental. Quem não é da aviação, não gosta da Callas ou não vai a Paris ver Ionesco, não existe. As não-alinhadas atacam no Monumental, mas a foleirice é a mesma.' [...] Os versos de Eduardo Pitta apontam para um dos temas mais importantes da sua poesia e, ouso afirmá-lo, da sua ficção: o exílio. Afonso, um português [...] adiciona, à sua nacionalidade imanentemente problemática [...] a homossexualidade, uma outra forma de consciência da diferença, neste caso não racial, mas sexual.

José Pacheco Pereira, Abrupto, 2003.

Li um muito interessante ensaio de Eduardo Pitta que saiu recentemente em opúsculo intitulado Fractura. A Condição Homossexual na Literatura Portuguesa Contemporânea. O autor identifica os momentos e os autores, homossexuais ou não, em que a homossexualidade surge na literatura portuguesa. E são bastantes [...] Escrito numa linguagem mais tensa do que é habitual num ensaio literário, formulando uma tese inicial que depois fica diluída no texto (sobre a dificuldade de aplicar ao caso português o padrão da literatura gay americana), o ensaio enuncia as relações do relato homossexual na literatura com uma «ética da desobediência», a pretexto de Cesariny [...] Vale a pena ler.

Pedro Mexia, Diário de Notícias, Lisboa, 2003.

Eduardo Pitta [...] estreou-se na ficção com as três narrativas de Persona [...] Embora também estivesse presente na obra poética do autor, nessas histórias o universo homossexual era explicitamente tematizado. Agora, Eduardo Pitta alinha algumas ideias sobre esse domínio em Fractura... [...] Esta é ainda uma área de estudos nova entre nós [...] Fractura... é escrito no estilo habitual de Pitta: uma elegantíssima sobriedade, um tom snob e por vezes verrinoso, alguns raciocínios elípticos e justíssimos. Mas ficam por resolver algumas questões centrais: a categoria «gay» [...] a homogeneidade de uma «cultura homossexual» [...] a linha de demarcação entre emancipação e gueto; as estratégias conflituantes da integração e da transgressão; a diferença entre literatura gay e literatura homossexual [...] Aberto o caminho, estas tarefas ficam para próximos trabalhos, do próprio Pitta ou de terceiros.

Abel Barros Baptista, revista Inimigo Rumor, n.º 13, 2002.

Ocorre-me que o poeta e crítico português Eduardo Pitta, não sendo universitário, é um especialista: escreve sobre a poesia portuguesa contemporânea, que acompanha e lê exaustivamente, mantendo há anos a única coluna especializada de crítica de poesia da nossa imprensa periódica. Apenas um exemplo, a mostrar que a crítica exige preparação, treino, competência específica, nada disto atributo garantido dos universitários, porque simplesmente se exige de todos os críticos e em todos está permanentemente à prova.

João Tiago Proença, coluna Bloco de Notas, LER, n.º 56, Lisboa, 2002.

Comenda de Fogo reúne a crítica que Eduardo Pitta exerce nesta mesma revista, sob o título genérico  —  extraído de um verso de Valéry  —  O Som & o Sentido [...] Ora, as vantagens que uma tal tribuna poética pode ter, em termos de divulgação para o grande público, são aproveitadas com sageza por Pitta [...] Num segundo nível de leitura, os textos de Pitta encerram posições quase doutrinais em termos de poética e, aqui e ali, revelam o substracto de algumas lutas geracionais históricas. Pelo meio remoques pessoais com destinatário, envoltos numa linguagem que não hostiliza o leitor neófito [...] Assim, nota-se o à-vontade de Pitta na literatura anglo-saxónica ou moçambicana [...] por contraposição à cultura alemã, por exemplo. Entre os temas, é claro que a questão homoerótica é tratada mais circunstanciadamente, mas sem heterofobias.

Ana Marques Gastão, Diário de Notícias, Lisboa, 2002.

Vêm estas considerações a propósito da recente publicação de Comenda de Fogo, do também poeta Eduardo Pitta, reconhecido por um despojado movimento linguístico não ornamental, por vezes quase epigramático, elíptico, descarnado, ácido, nítido, tão vagaroso como veloz na deriva fugaz do corpo [...] Para além da sede de leitura que precede a análise da especificidade da obra poética, o autor [...] detém-se  —  como crítico documentado, minucioso até à exaustão, nos seus pressupostos tão ou mais enumerativos quanto analíticos —, não só nos poetas canonizados, como nos novos e novíssimos. E é hábil, contundente e organizado no manuseamento da palavra e na criação de um metadiscurso onde o leitor se pode encontrar [...] Eduardo Pitta está atento aos poetas que escrevem numa linha de continuidade histórica [...] fazendo sentir que a literatura nem sempre está desfasada de uma realidade sociocultural. O discurso crítico de Eduardo Pitta dir-se-ia também [...] móvel, fluído, sintético e ecléctico na reconstituição da trajectória do autor.

Fernando Matos Oliveira, Colóquio‑Letras, 161-162, Lisboa: 2002

Eduardo Pitta, poeta e crítico assíduo de poesia, acaba de publicar o seu primeiro livro de ficção. Para quem teve oportunidade de ler a sua recente antologia poética, Marcas de Água, digamos que o encontro com este livro de contos regista uma deslocação assinalável da sua escrita. Das Marcas passamos agora para a esfera da Persona, título do livro em análise. Tal deslocação tem um manifesto interesse crítico, precisamente porque implicou a narrativização do sujeito e, com ela, uma maior legibilidade das Marcas que os livros anteriores exibiam nos interstícios dos versos. Com esta mutação, a escrita gay encontra em Portugal uma voz audível como não tinha tido até aqui. Aliás, poder‑se‑ia ver neste livro o sintoma da emergência mais ou menos consistente de uma cultura pública gay entre nós [...]. A primeira impressão que se tem ao ler Persona é a de uma reactivação de experiências de leitura de algum património moral do século XVIII, até porque há entre eles marcas de género, digamos assim: ritmo acelerado, narrador autoritário, pathos autobiográfico e sobredeterminação da pulsão erótica.

Andreia Brites, Canal de Livros, 2002.

Eduardo Pitta coligiu os seus artigos publicados na revista LER desde 1994 numa obra de referência para a compreensão da poesia recente publicada em Portugal. Comenda de Fogo [...] reúne 26 artigos do poeta, aqui assumidamente na sua função de crítico, numa primeira parte dedicada à publicação (que mantém o mesmo título «O Som & o Sentido» que encontramos na revista), e outros 4, de cariz mais reflexivo e longo sob o título «Poetas: memória e cânone». São mais de cem nomes, maioritariamente portugueses, entre poetas consagrados e jovens poetas, os analisados sob a pena de Eduardo Pitta [...] o autor não cai na crítica fácil ou superficial, nem tão pouco se esconde numa análise hermeneuticamente objectiva. Pelo contrário, Eduardo Pitta assume a sua própria construção da história da poesia portuguesa da última década [...] O léxico utilizado é por vezes denso e codificado pelo que é igualmente necessário que se conheça o autor para entrar no seu universo teórico [...] Um livro a que se regressa sempre.

Helena Barbas, Expresso, Lisboa, 2002.

O livro Persona [...] foi louvado como um acto corajoso [...] Falar em Portugal de uma «escrita gay» é puro folclore [...] a obra é boa ou má. E Persona, enquanto texto literário, é insólito, original, de grande qualidade literária, onde o tema das diferenças vai muito além do meramente sexual. Constitui-se de facto como um pequeno romance na medida em que cada um dos contos tem por herói a personagem de Afonso, apanhada em três momentos-chave da sua vida: aos 12, aos 18 e aos 22 anos. A cada idade corresponde a narrativa de uma forma de iniciação. Três etapas de um caminho em direcção à maturidade marcadas pelos encontros, pelos espaços: a escola, uma viagem ao deserto, a vida de guerreiro. Trata-se de um percurso de crescimento e, apesar da brevidade, os episódios revelam-no como a versão moderna de uma educação sentimental. O herói move-se na alta-burguesia, retrata-lhe os tiques e os podres, o discurso tanto mais elegante quanto escabroso, reproduz a snobeira de um distanciamento muito «british» [...] Não percam.

Fernando Pinto do Amaral, «História da Literatura Portuguesa» [volume 7], Óscar Lopes e Maria de Fátima Marinho (Eds.), Lisboa: Alfa, 2002.

Eduardo Pitta [...] cuja obra relativamente escassa traduz a sedução por um universo fortemente erotizado em que as memórias afectivas não se acompanham por qualquer fluida nostalgia, mas engendram, pelo contrário, flashes onde cintila a presença dos corpos e dos olhares subitamente vivos na deflagração dos instantes e na sua cristalização á superfície do poema. O resultado conduz a uma concisão epigramática repartida por motivos geralmente relacionados com o desejo homossexual e com a sua tensão, geradora de alguma asfixia ao nível das convenções sociais.

Michael Pye, Ciberkiosk, 2001.

I want to insist on this point, so I make it at the very start so we can get on with other things: like the excellence, the sharpness and the interest of Eduardo Pitta's impressive first fiction, Persona. But Pitta's stories concern men who fancy men, their networks, their meetings, their context, so they are presented as «gay» fiction and we are invited to consider a «gay» canon. This is said to be of historic interest in Portugal [...] What Pitta does, with economy and power, is exactly that: although we might prefer a more polite version, since his colonial soldiers have a lifestyle out of social columns and are not the petty thieves and turncoats of Genet's fantasy. You have to be Afonso for the duration, suspected at school in Mozambique of being a queer (and exploited by the doctor inquisitor who fancies a blowjob); finding possibilities in the unlikely context of the Kalahari; ending up not quite a political prisoner during the colonial wars, a soldier whose sexuality makes him either a security risk or just like all the other bichas in the barracks [...] This means that Pitta can write about queers, and men who fancy men, in a failing colony, without tumbling into the nonsense of associating homosexuality with some sort of imperial decadence (it was queers like Cecil Rhodes who built the British Empire, and no doubt there are queers like Cecil Rhodes waiting to be discovered among the founders of the Portuguese....). By transcending the simple subject of «being gay», Pitta finds his own particular subject and he's not answerable for any programmatic reading from some homophobic ignoramus [...] However, Pitta's Afonso is a reader. He goes out to buy John Rechy's book Numbers, recommends to his rugby-playing buddy Rechy's earlier book City of Night. Both approve the sense of ritual and choreography in Rechy's descriptions of the sexual hunt, are interested by the notion that a closeted homosexual is like a black who straightens his hair and tries to pass: which seems a little perverse [...] And I admire these stories of Eduardo Pitta, because they are about snobbery, travelling, the odd tensions of a failing colony, the end of an empire; and yet they are far more than their subject. They are also about the odd knowingness that comes to gay men quite young, because we can see the world has to be calculated into shape. But they are not propaganda or pornography or sociology or anthropology or history. They are fiction, good fiction, and welcome in themselves.

Sara Figueiredo Costa, Canal de Livros, 2001.

Acabado de surgir nas estantes das livrarias, o primeiro livro de ficção de Eduardo Pitta surpreende pela forma, inédita em Portugal, de abordar a chamada temática gay. Persona compõe-se de três histórias, contos «morais» segundo o próprio autor, em que a complicada teia das relações humanas se constrói sobre os alicerces de uma homossexualidade assumida e afirmada pelo protagonista. Em Marilyn, a história que abre o livro, assistimos ao sereno processo de assumpção e descoberta da sexualidade de Afonso, adolescente, em contraste doloroso com a veemente repressão social desempenhada [...] pela instituição escolar. [...] Kalahari, nome de deserto e título da segunda história [...] é o cenário de uma viagem de carro que se desdobra em percurso através da solidão momentaneamente quebrada [...] Em Pesadelo [...] deparamo-nos com [um] retrato bem construído do ambiente militar em Moçambique cerca de dois anos antes da revolução dos cravos [...] corte certeiro em tudo o que a caserna enquanto comunidade pode esconder [...].

Carlos Bessa, Expresso das Nove, Ponta Delgada, 2001.

As três histórias deste Persona (no duplo sentido de máscara e pessoa) são um percurso de crescimento e aprendizagem de uma personagem Afonso, espécie de alter-ego do autor. O Afonso adolescente, desportista e ciente e informado da sua condição homossexual [...] O Afonso de dezoito anos, culto, aventureiro e apaixonado [...] O Afonso do serviço militar obrigatório, em tempos de guerra [...] já muito perto do 25 de Abril de 1974.

Maria Augusta Silva, Diário de Notícias, Lisboa, 2001.

Três narrativas não longas, dois contos e uma novela: Marilyn, Kalahari e Pesadelo, primeira incursão do poeta Eduardo Pitta no terreno da ficção [...] Uma abordagem crua e desassombrada de um lado oculto das guerras, neste caso, da guerra colonial e do apartheid sul-africano; obra na qual se cumpre uma função crítica perante cenários vincadamente marcados pelo arbítrio e abusos de poder [...] A homossexualidade surge em Persona de uma forma singular nas letras portuguesas (e, sobretudo, na literatura pós-colonial), ao articular, contundentemente, um dado universo do colonialismo moçambicano com uma identidade gay [...] Eduardo Pitta, ele mesmo nos diz, «subverte as armadilhas da nostalgia amorosa, sexual e colonial» e espelha a decadência do Império sem qualquer espécie de retórica [...] Narrador comum às três narrativas: Afonso. Um olhar que perde a inocência e se faz largo sobre o cinismo político e social.

Jorge Listopad, Jornal de Letras, Lisboa, 2001.

Persona. É nome de livro [...] Três prosas de diferente extensão, confundindo-se numa, numa zona, formando um universo. O enigma poético filtra a homossexualidade latente, factual, ressuscitando a memória dos pequenos infernos, evocando África, mais exactamente os últimos momentos de Moçambique colonial e Lourenço Marques branco. O seu autor é poeta [...] de nome Eduardo Pitta. Desde então, o poeta sabe a cifra da escrita, rara e original; porém, nem sempre quer ajudar a decifrá-la. Claro, leia Persona quem quiser e quem puder, mas não se fique pelo meio quem gostar pelo menos de uma página: creio que o delgado livro, independentemente de todos os possíveis juízos de valores, pode tornar-se, num dia próximo, um objecto de culto.

Pedro Mexia, Diário de Notícias, Lisboa, 2001.

Algumas semelhanças e muitas diferenças encontramos em Persona, a estreia de Eduardo Pitta na ficção [...] O título e esta nota introdutória têm um grande grau de ironia, uma vez que a máscara [persona] nestas narrativas é a própria autobiografia, e que a semelhança com pessoas e factos é intencional e cuidadosamente arquitectada [...] um documento, em grande medida surpreendente, sobre as relações de poder e a política de costumes em finais do Império. Persona é, assumidamente, uma narrativa de aprendizagem sexual, de feição homoerótica, nomeadamente no confronto com as iniquidades ou as hipocrisias de instituições como a Escola e o Exército. São histórias da vida privada que também tocam profundamente a vida pública, tornando estes contos tão políticos como morais. Tal como na sua poesia [...] Pitta cultiva uma escrita sóbria, irrepreensível, e denota a influência de um meio anglo-saxóico e culto como aquele que existia nas elites moçambicanas [...] sem nostalgia nem demagogia [...] Persona é um livro de alguma crueza mas de leitura agradável, e sobretudo de extrema ironia e crueldade selectiva.

Ana Luísa Amaral, Colóquio-Letras, n.º 155-156, Lisboa, 2000.

Marcas de Água / Este o primeiro aspecto que gostaria de referir: a forma implacável como o autor lidou agora com textos antigos, lucidamente recorrendo àquilo a que Eugénio Lisboa, no prefácio, chama “um tremor bem controlado”. Esse tremor controlado percorre a poesia de Eduardo Pitta, que assim se estrutura na tensão entre o lirismo e a sua desdramatização, entre a ternura e a ironia, entre o sublime e o contingente [...] Sobressaem neste livro grandes áreas temáticas: o amor, o erotismo, a guerra, a solidão, temas filtrados e depurados por uma lente rigorosíssima de ironia e contenção [...] O inferno, com uma tão larga tradição na literatura ocidental de raiz judaico-cristã, fundamental para a famosa síntese dos contrários da poesia de William Blake [...] é aqui revisto, para exprimir, uma vez mais, a tensão entre o pensado e o espontâneo, entre o sistematizado e o trivializado [...] na poesia de Pitta, esta condição de estrangeiro, de apátrida, que se revela, a nível das estruturas discursivas, na frequente suspensão do eu lírico e sua substituição pela presença de várias vozes, advém de o sujeito habitar vários espaços e identidades sem, de facto, pertencer a nenhum.

José Ricardo Nunes, Ciberkiosk, 1999, e rev. LER, n.º 48, Lisboa, 2000.

Na poesia de Eduardo Pitta configura-se, então, um deliberado exercício de aprendizagem de economia discursiva através da qual se visa inverter o processo de desgaste das palavras. Por um lado, constrói-se um discurso poético rigoroso, tenso, em que os materiais são dispostos de forma muito contida, com base num reduzido conjunto de recursos verbais. Por outro lado, o texto poético é deixado como que em aberto, podendo despoletar um sentido dúplice, potencialmente outro [...] Entre as estratégias discursivas mais relevantes da poesia de Eduardo Pitta, encontramos as estruturas elípticas, afirmando-se e desenvolvendo-se as possibilidades de sentido a partir desses espaços brancos abertos no tecido verbal [...] A brevidade, e também a intensidade, da poesia de Eduardo Pitta, encontra um paralelo semântico na imagem do relâmpago.

Jorge Henrique Bastos, caderno Cartaz, Expresso, Lisboa, 1999.

Marcas de Água / Um dos desígnios mais marcantes desta poesia (e esta antologia pessoal dá bem a ideia) é a sua inequívoca pulsão para criar um espaço expressivo em que a linguagem actua de forma contida, a ocorrer desde os primeiros livros. As heranças simultâneas que escolhe regem-se não pela vivência exteriorizada, pelo contrário, o que predomina na dicção deste poeta é a procura de um auto-conhecimento interrogativo, a reflexão erótica, o atrito dos encontros e das perdas, e a apreensão do mundo. A presença constante do mundo anglo-saxónico imprime na sua poesia um selo dialógico que irá acentuar cadencialmente com inúmeros autores de sua eleição. O diálogo estabelecido não dramatiza a sua condição, enfrenta a memória e a sua deriva no mundo com corajosa lucidez, em consonância com a apurada percepção das coisas.

Ana Marques Gastão, Diário de Notícias, Lisboa, 1999.

Marcas de Água / Ferida de realidade, a poesia de Eduardo Pitta, agora coligida num só volume [...] dá testemunho de uma voz estrídula, pulsional, desabrida, atenta a um sentido sobressaltado do ritmo e das mudanças de respiração [...] O entendimento do mundo não passa, para o poeta, pela simples compreensão da linguagem, breve, acutilante, alusiva, hostil à incontinência discursiva, mas pela decifração de uma interioridade obscura, perturbadora, solitária.

Carlos Bessa, Expresso das Nove, Ponta Delgada, 1999.

Por isso não há, em Marcas de Água, efusão sentimental mas sobriedade elíptica. Aí faz-se, em surdina, a história de uma vida.

Rosa Maria Martelo, rev. O Escritor, n.º 13-14, Lisboa, 1999.

Em Marcas de Água, e de um modo que nenhum dos livros anteriores poderiam por si só proporcionar, o leitor é encaminhado através de uma experiência do instante, ou mais exactamente do paradoxo do instante [...] E os poemas sucedem-se como se o tempo não pudesse medir-se senão pela súbita fosforescência que ilumina e fixa certos instantes, quando uma espécie de incêndio dos sentidos consegue unir numa liga indissolúvel as circunstâncias do acontecer e as palavras do poema [...] Julgo que esta tensão, que constitui o vector fundamental da poesia de Eduardo Pitta, surge mais evidente agora, em Marcas de Água. Se há sempre imensa gente nestes versos, isso não significa que eles cheguem a ser abertamente narrativos ou que assumam uma função representativa [...] A retracção discursiva, a aguda nitidez destes poemas tem qualquer coisa de ferida insanável, de dorida resistência. E se a intensa sensualidade que os atravessa nada tem que ver com a libido velada da melancolia, ela tem, no entanto, um reverso de ausência e desencontro que é, no fundo, o cerne do que aqui chamei errância.

Eugénio Lisboa, Jornal de Letras, Lisboa, 1999.

Mas, falando de riscos, toda a verdadeira poesia é sempre um risco: e entre o risco de dizer de menos e o de dizer de mais, apostaria no primeiro. Por isso, os defensores (não irónicos) da brevidade sustentariam que esta serve particularmente bem a poesia de Eduardo Pitta, que já apelidei de forte, brusca e intensa, ao que tive também a oportunidade de acrescentar que se alimenta de altas temperaturas. Para um discurso poético deste cariz [...] a compactação dele entre as baias apertadas de uma dimensão avara multiplica os efeitos, a intensidade e a temperatura [...] Poeta exigente e de ouvido tirânico, Eduardo Pitta procede por subtracção, por acreditar que esta é produtora privilegiada de vigor e durabilidade [...] De claridades e obscuridades violentamente contrastantes, em disparos breves e ácidos, se compõe, também, a poesia do autor de Marcas de Água [...] Quando Eduardo Pitta, num verso esplendoroso e cheio de fogo, nos fala da «cidade incendiada pelo olhar desprevenido», atribuindo, ousadamente, ao olhar desprevenido a causa profunda do incêndio da cidade, está, no plano da metáfora, a correr um risco da mesma natureza — embora não da mesma dimensão... — do que correu quem se lembrou de imaginar que massa e energia se equivalem.

Pedro Mexia, DNA, Lisboa, 1999.

A poesia de Eduardo Pitta, agora coligida em Marcas de Água, aparece claramente como das mais significativas, embora mais discretas, dos últimos vinte e cinco anos [...] Pitta é de uma notável frieza no modo como inscreve, como se fossem lápides, as palavras de um discurso assumidamente autobiográfico, mas que se resguarda de qualquer confessionalismo excessivo. Na verdade, se muitas das influências de Pitta são anglo-saxónicas, o autor recusa o lado mais evidentemente quotidiano dessa matriz, e dela retira apenas uma economia verbal que se furta à palavrosa tradição latina [...] A poesia de Pitta retrata com grande vigor uma vivência homoerótica, mas nunca envereda pelo didactismo gay ou pelo “transgressivo” previsível [...] Há um duplo nomadismo nesta obra: o nomadismo do “apátrida” e o nomadismo da demanda erótica, marcada pelo arbítrio e por uma violência que se joga paradoxalmente entre a afirmação do corpo e um opressivo mal de vivre.

Fernando Pinto do Amaral, supl. Leituras, Público, Lisboa, 1999.

Marcas de Água / Estamos, assim, perante uma poesia que atinge a sua vocação mais singular ao voltar-se para sensações ou emoções fortes, intensas, próximas dos extremos ou das altas temperaturas [...] são palavras capazes de queimar como o fogo e o gelo, imagens que surgem na «iminência do desastre» e se coagulam numa violência verbal que atribui ao vento uma doçura de lâmina ou pode mesmo descer à realidade mais crua do quotidiano [...] Também o domínio amoroso — absolutamente essencial em Pitta — aparece contaminado pela mesma carga expressiva, pela mesma intensidade. Quando vemos o rosto de alguém definido como «um mapa / crivado de cidades saqueadas», compreendemos até que ponto o erotismo corresponde aqui, em maior ou menor grau, a um território de sedução cuja febre desencandeia um frenesi envolvendo por vezes uma assinalável dose de violência [...] De facto, embora Pitta seja um poeta português e se tenha afastado da realidade moçambicana das últimas décadas, subsiste na sua poesia a presença nostálgica [...] de uma «terra / intacta e pura» já perdida.

Eugénio Lisboa, pref. de «Marcas de Água», Lisboa: INCM, 1999.

Além de poeta, ensaísta e crítico arguto, sensível, minuciosa e perversamente bem documentado, Eduardo Pitta recorta, no território escorregadio das nossas letras, um perfil singular e forte, de fulgores breves, nítidos, bruscos e decididos que lhe dão uma identidade particular e inconfundível. Desde o primeiro livro [...] que a sua voz se nos apresentou já feita e segura, a convir-nos um discurso inquietante, sensual, ocasionalmente ameaçador ou à beira do quase sinistro, solar e voluptuoso, mas incorporando, com igual apetência, o nocturno, o violento e o quase selvagem [...] Poeta dos mais notáveis de entre os que em Moçambique se fizeram e de lá saíram, embora isto não seja dito com frequência, a marca da sua poesia não tem contudo muito que ver com a chamada cor local, embora se lhe possam encontrar algures referências dessa natureza [...] Poesia que pouco ou nada deve àqueles valores que convencionalmente se perfilam como poéticos [...] o vigoroso discurso poético de Eduardo Pitta, na sua arquitectura aparentemente sólida e materialmente sedutora, mina-nos contudo, de modo insidioso e inelutável, a estabilidade interior e ilustra, como poucas, a proclamação de Marcel Béalu: «La mission du poète est de troubler la sécurité.» Quando o seu verso nítido nos explode no rosto [...] sabemos exactamente do que falava Béalu.

Cecília Barreira, Colóquio-Letras, n.º 129-130, Lisboa, 1993.

A poesia de Eduardo Pitta preenche o espaço de imaginário que se prende com o ritual da noite e da morte [...] É uma poesia contida que se espraia numa perplexidade existencial [...] Por vezes, nesta longilínea travessia pelos sentimentos e sua dissecação poética, perfila-se o desejo. Surge como que «aturdido, desapossado, atávico». É uma pulsão, nunca um sentimento. Os sentimentos, esses, reabrem-se com outro esplendor através da espessura da memória: «Nenhum de nós passeia impune / pelos retratos: fazem-nos doer / os recessos da memória» [...] A noite e o thanatos, o onírico e o intraduzível pulsam nesta poesia com uma força inusitada [...] Arbítrio é um livro de desafios, onde se reescreve o posicionamento de todos nós perante várias interrogações.

Maria João Reynaud, revista Limiar, n.º 1, Porto, 1992.

Arbítrio parece assim corresponder à intenção de tornar perceptível uma coerência discursiva que poderá ter escapado mesmo ao leitor mais atento [...] Nesta espécie de remontée dans le temps, da maturidade à adolescência, que é porém um trajecto reversível, delineia-se, texto a texto, a deriva de um sujeito que estabelece com a linguagem uma relação fundada numa carência irredutível, ontológica, mas que paradoxalmente deixa entrever, através dessa mesma linguagem, uma desbordante energia pulsional que se traduz num excesso subversor da significação tangível [...] Poesia que surpreende, num impudor voyeuriste, os tropismos dos corpos que buscam na troca voluptuosa e fortuita «o instantâneo de um rosto intraduzível» — o rosto inominável que traz o estigma doloroso da condição humana.

José Emílio-Nelson, Jornal de Notícias, Porto, 1991.

Arbítrio / Não me lembro, entre os últimos contemporâneos, de outro poeta que consiga recriar a experiência da sua sexualidade com esta alegre ironia, sem teorizações de catálogo filosófico.

Nuno Vidal, O Independente, Lisboa, 1991.

Arbítrio / Eu salientaria sobretudo a inexistência daquela moleza autocomplacente que torna alguma da poesia recente num embalo enjoativo. Há uma força declarativa nos versos de Eduardo Pitta que não se retrai mesmo em usar o calão mais lapidar. E são precisamente os poemas lapidares, os que cristalizam numa espécie de epigramas de pendor moral, a zona mais individualizada e mais conseguida desta poesia. Como exemplo disso mesmo veja-se este poema: «Temos que baste: a pátria à janela / e a vontade na cama.» É de facto quanto basta.

Fernando Pinto do Amaral, Colóquio-Letras, n.º 103, Lisboa, 1988.

Archote Glaciar / Vem esta reflexão abrir caminho à tentativa de compreendermos a poesia de Eduardo Pitta, que publicou há pouco tempo uma plaquette mas cujo primeiro livro data já de 1974. Não é fácil desvendar o seu percurso à luz do que mais terá sido importante nos anos 70 [...] Quanto a nós, falaríamos apenas no regresso a um tom expressionista, servido por uma violência de linguagem a que não estávamos habituados [...] Oscilando em geral entre narrações muito elípticas, descrições propositadamente estilhaçadas e um certo gosto pelo aforismo, estes versos contidos e incisivos recorrem, no seu movimento pulsátil, a inesperadas associações verbais ou a metáforas cuja agressividade apanha de surpresa o leitor mais incauto, processos que têm por pano de fundo um estilo violento e cortante [...] Convém aliás salientar como esse prazer dos extremos é outra das peculiaridades de uma escrita que sabe viver dos contrastes e às vezes nos queima como o próprio gelo [...] A toda essa arte de captação do instante, do irrepetível augenblick, podemos ligar a importância que para este poeta assume o olhar [...] Perante uma verdade com um poder tão decisivo, é forçoso reconhecermos a tragicidade que habita os núcleos temáticos da poesia de Eduardo Pitta.

Luís de Miranda Rocha, Diário de Lisboa, Lisboa, 1988.

Archote Glaciar / Por um lado, parece haver, na cena discursiva, uma excessiva afluência de prevalorizações (temáticas e assumptivas) do real, da realidade e da experiência pessoal ou nos domínios, antes de outros, da afectividade [...] Mas diga-se que Pitta continua a praticar uma linguagem fortemente investida numa metafórica metonímica de grande intensidade denotativa, e numa sintaxe interessada na contenção e na concisão [...] A sua obra propõe-se, no entanto, como das mais esclarecidas acerca de tradições ascendentes e de processos vários para os transformar e superar.

César Antonio Molina, supl. Libros, El País, Madrid, 1987.

Eduardo Pitta viveu e vive o dilema de ter duas pátrias e de, ao mesmo tempo, não ter nenhuma. A este respeito escreveu em 1971 um verso lapidar: «apátridas que somos / daquela pátria que nos sobra.» Culturalmente ligado desde a infância à matriz portuguesa, mantém também uma forte relação com o mundo cultural anglo-saxónico [...] Mas a poesia de Eduardo Pitta reflecte igualmente outras preocupações, pois não é apenas, na expressão feliz do poeta galego Ramiro Fonte, «um sentimento da terra perdida».

Amador Palacios, rev. Hora de Poesia, n.º 48, Barcelona, 1986.

Eduardo Pitta gosta do poema curto, conciso e, muitas vezes, aforístico, o que, entretanto, não impede que a sua poesia se povoe de uma nebulosidade sugestiva, apta para a melhor comunicação com o leitor. Nos seus poemas predomina um erotismo hermético, uma palavra palpitante e sinuosa que faz dele, deste modo, uma das vozes mais características da nova poesia portuguesa.

E.M. de Melo e Castro, Diário de Lisboa, Lisboa, 1986. coligido em «Voos da Fénix Crítica», Lisboa: Cosmos, 1995.

A Linguagem da Desordem / Mas essa dessatisfação, que é uma coordenada existencial, tende a transformar-se em característica textual da poesia que nos últimos dez anos se vem afirmando. Assim ela surge condicionada e contaminada por valores escriturais contraditórios, como por exemplo quando Eduardo Pitta apela para a escrita da desordem [...] mas de facto se serve de uma ordenada e sossegada organização escritural e imagística.

Manuel Frias Martins, «10 Anos de Poesia em Portugal: 1974-1984», Lisboa: Caminho, 1986.

Perdido o fascínio do comprometimento, a poesia portuguesa surgida a partir de 1979-1980 parece conduzir-se em recuo diante do pensamento da sua própria liberdade [...] Um Cão de Angústia Progride, de Eduardo Pitta, é talvez o texto que representa exemplarmente esse momento dilemático por que a poesia portuguesa se busca em liberdade [...] Eduardo Pitta, publicando A Linguagem da Desordem onde uma nostalgia vibrátil unifica poemas deliberadamente saturados de imagens, ou que se atravancam de estruturas fortuitas em que a pertinência do discurso salta sem cessar de um plano para outro, raras vezes definindo a causalidade a que se refere.

Fernando J.B. Martinho, balanço 1983-84, sep. AICL, Lisboa, 1985.

Raiva sem apelo, aguda consciência de ter chegado tarde, de não haver água que chegue para a desolação das cinzas, de ser intruso ou espectador de um «tempo rarefeito», há-as, desmedidas, em desamparo total, em Olhos Calcinados, de Eduardo Pitta.

Rui Knopfli, Colóquio-Letras, n.º 89, Lisboa, 1986.

Olhos Calcinados / Na fugacidade do instante e num registo tão económico e rigoroso, uma tão vasta gama de implicações e harmónicas [...] a capacidade de surpreender o quotidiano, transfigurando-o em algo que, sem nunca deixar de sê-lo, cristaliza na realidade única e diversificada que somente ocorre na zona misteriosa da oficina poética e da imaginação criadora [...] empresta à economia do texto um fulgor e uma qualidade emblemáticos: dez palavras, uma dúzia, três, quatro versos, para dizerem um longo arrazoado, tal é a linguagem definitiva das lápides. Decorrentes, ou concorrentes, uma e a mesma, eis as qualidades, ou qualidade, que me parecem conferir um timbre de singular excelência à voz que distingue Eduardo Pitta de outros  —  por certo muito estimáveis  —  valores da poesia portuguesa revelada a partir dos anos 70. O seu fio condutor exibe a força estrita, o traço linear e ácido da cicatriz indelével: «nenhuma água / para tanta cinza.»

Álamo Oliveira, A União, Angra do Heroísmo, 1985.

Olhos Calcinados é o quarto título deste poeta que sabe do seu ofício e que empresta ainda a cada verso um vigor emotivo que toca e deslumbra. Deslumbramento ainda pela riqueza de cada poema, pelo tratamento da imagem, pelo poder de síntese. É uma poesia limpa de coisas inúteis. E isto não abunda.

Eugénio Lisboa, Colóquio-Letras, n.º 83, Lisboa, 1985. Coligido em «O Objecto Celebrado», Coimbra: AUC, 1999.

A Linguagem da Desordem / Como aconteceu a muitos outros déracinés semelhantes, o regresso à «pátria» traduziu-se, neste caso, por uma espécie de exílio particular, em que tudo se perde menos a língua [...] Há nesta poesia firme, brusca e breve, feita de «palavras poucas», de «palavras nítidas, velozes», com «a claridade rente à terra» e «de uma crueldade sedosa», toda uma homenagem eloquente e pungente, ainda quando ou por isso mesmo que despida de sentimentalidade, àquela «Nostalgia haurida / no dédalo da memória.» Mas não só. Há também [...] espaço (compensação? redenção?) para o «verde de excessos», para o rosto de Antínoo, para a «cal impetuosa» das ilhas gregas, para o «vinho nomeado», para a «ternura a levedar / na polpa dos meus dedos», para «os dentes nas espáduas»  —  «veredas percorridas pelo fogo.» Para a «vontade desatinada», em suma. Para uma certa forma de desordem e para a música que a matiza: «É pela música que chego / e vos digo do insubordinado pulsar / de outra vontade.» [...] É o que faz o fascínio permanente e intenso da escrita poética de Eduardo Pitta [...] o domínio, a um tempo ilusório e firme, de uma escrita luminosa, tensa e alada, sobre um caos obscuro, violento e rico. Os «de fora», os que têm o hábito de ler só as aparências e auscultam a subversão onde ela não tem que estar, não sabem que um grande domínio externo apenas tenta frequentemente estrangular uma grande desordem interna.

Isabel de Sá, Jornal de Notícias, Porto, 1984.

A Linguagem da Desordem é, efectivamente, um percurso através de vários corpos entre «o caos e a memória». Uma espécie de violência surda se desprende destes poemas, onde palavras como espelhos, dentes, crime, têm uma importância fulcral [...] Eduardo Pitta aposta na «viagem». Viagem não superficial, ao interior dos seres que deambulam, inconscientes ainda dos valores que os amarram à realidade circundante: «É pela música que chego / e vos digo do insubordinado pulsar / de outra vontade.» [...] Todo o investimento está neste jogo, por vezes duro, cruel, difícil.

Eduardo Prado Coelho, Jornal de Letras, Lisboa, 1984.

E, já que falamos de crítica, permitam-me que refira dois livros de que gostei [...] A Linguagem da Desordem, de Eduardo Pitta, e Recados de Luís Filipe de Castro Mendes.

Miguel Serras Pereira, Jornal de Letras, Lisboa, 1984.

Embora de vez em quando alguns possam tropeçar nas «irregularidades» de certos versos destes Olhos Calcinados, as reservas cedem perante poemas em que o estado do mundo se volve uma espécie de emoção impessoal e purificada, de onde uma nova lucidez parece libertar-se.

Fernando Assis Pacheco, coluna Bookcionário, O Jornal, Lisboa, 1984.

Pitta, cicerone insinuante, leva-nos à Grécia dos corpos solares, faz-nos defrontar vinhas, pedras e mar, carrega-nos de luzes, brilhos, revérberos de cristais. Mas viaja também à cultura inglesa, de que há traços profundos nos seus pequenos quadros emocionados [...] Quase metade dos trinta poemas do livro cresce, no máximo, até à estrofe de quatro versos  —  suprema ironia de um poeta desconfiado das retóricas em curso. A Linguagem da Desordem é uma aposta a fazer.

Jorge Listopad, Colóquio-Letras, n.º 62, Lisboa, 1981.

Um Cão de Angústia Progride / Quem conhece o teatro sabe o que é a voz branca: os poemas do Autor são ditos por essa voz [...] O silêncio, a mudez, a memória (os «arquétipos» dela, num verso menos feliz, explicativo), a ausência, a distância, o exílio, a condição do apátrida, são os dados psicossomáticos dessa brancura [...] O título do livro apresenta-se exacto, sobretudo quanto ao seu verbo: a progressão da angústia articula-se no essencial e envolve, concretamente, o verso e o seu leitor, dificilmente insensível a essa démarche.

João Gaspar Simões, Diário de Notícias, Lisboa, 1980. Coligido em «Crítica II, Tomo III», Lisboa: INCM, 1999.

Por isso mesmo oscila a balança idiomática do autor de Um Cão de Angústia Progride, entre o que quase não faz sentido lógico e o que está cheio de sentido lógico [...] Livro realmente belo, angustiosamente belo, ao livro de Eduardo Pitta vêmo-lo na perspectiva em que vimos os livros de Rui Knopfli e na mais larga perspectiva em que vimos os próprios livros de Cinatti, de Tomaz Kim, de Sophia Andresen [...] e, porque não, os próprios livros de Jorge de Sena. O drama do apatridatismo destes poetas nados, formados e amadurecidos ao sol de outras pátrias, de outras culturas ou de outras línguas [...] está bem presente na angústia que morde como um cão as entranhas do poeta.

Maria Estela Guedes, Diário Popular, Lisboa, 1980.

Um Cão de Angústia Progride / Eduardo Pitta não é um romântico, é um poeta que recusa toda a forma de evasão.

Pedro Tamen, Expresso, Lisboa, 1975.

Um Cão de Angústia Progride / Ora Eduardo Pitta é já, lá (e cá, onde temos a sua língua e a mesma Poesia) uma voz importante e tanto mais quando não quer dizer demais.

Lourenço de Carvalho, rev. Tempo, Lourenço Marques, 1974.

Sílaba a Sílaba / Deixando para trás as inocências enganadoras e revelando-nos uma linguagem de inspiração temporal, o poeta dá-nos notícia de dias em ruína [...] dá-nos já num livro de estreia uma lição de rigor [...] para um recorte de leitura dramática, sem cair apenas num jogo fácil de palavras.

António Daum, Notícias, Lourenço Marques, 1974.

O silêncio da palavra, o gozo de a manobrar como elemento perturbador [...] Mas Sílaba a Sílaba é algo mais que a redundância de certos abismos fantasmáticos ou angústias precoces que julgamos apenas próprias de um início. E aqui poderemos falar de intenções exactas.

David Mestre, A Província de Angola, Luanda, 1973.

Eduardo Pitta, autor dos mais jovens de entre os seus pares, é todavia já todo um poeta reclinado no âmago fascinante da palavra comunicada como exercício vital: «Custa-nos o discurso indirecto / no devir das palavras deficitárias [...] em que agora nos foi tão exíguo / um tempo de mapas a arder / no tableau-noir de um qualquer continente / em chamas?» [...] Luminosa e cruel, plena de subtilezas linguísticas, bela e corrosiva, cianídrica, devagarosa até à vertigem, veloz até ao êxtase, sólida e solitariamente, ela (a Poesia moçambicana) vai-se escrevendo, desenrolando o seu prumo, individualizando-se no cruzamento dos seus diversos aspectos e rumos.